A irmã mais velha

A irmã mais velha

Hoje quando fui buscar meus filhos no jardim de infância, a mais velha me disse que achava que o irmãozinho estava meio quente: "Avisei a professora dele, mamãe, mas ela disse para eu não me preocupar". De fato quando coloquei a mão na testa do meu caçula senti ele meio quentinho. Não chegava a ser uma febre, mas não é que a Maria tinha razão?  Era impressionante: ela tem 4 anos, encosta no irmão, acha ele quente, avisa a professora e a mim. Definitivamente ela é uma irmã mais velha.

Chegando em casa os dois foram - como de costume - tomar banho de banheira juntos. Há dias em que se chega perto do banheiro e só se escuta alegria. Mas hoje era dia de pau. 

- Maria me empurrou. 

- Ele roubou meu brinquedo. 

- Maria, ele é pequeno, não pode empurrar. Olha como ele fica triste, está chorando. 

- Você sempre defende o Gael. 

- Não é verdade. Por favor, Maria, deixa ele ficar com o brinquedo. 

- Tá bom, vai, toma. 

No fundo, eu sei que ele roubou o brinquedo dela e que como ele é pequeno eu quase sempre o defendo. E morro de dó da Maria que só porque é mais velha e tão boazinha, sempre cede em prol do irmão. 

Nunca vou me esquecer de uma noite pavorosa há uns dois anos. O Gael tinha dois meses e a Maria dois anos e meio. Eu estava sozinha com os dois em casa quando a minha filha acordou de madrugada com a boca cheia de aftas.  A pobrezinha gritava de dor. Com a movimentação, o caçula acordou. Eu queria atender a Maria direito, mas toda hora que eu deixava o Gael na cama, ele também começava a chorar -  sono, cólica, fome... sei lá.  Sem ter para quem ligar, me convenci que ia ser pior para todo mundo se eu fosse para um pronto socorro sozinha, com os dois. Dei um analgésico para a Maria e tentei acalmá-la: "Maria, vai passar, agora tenta ficar quietinha e ajudar a mamãe, estou sozinha, filha." Me lembro dela chorando baixinho, deitada no pedacinho restante do colo que lhe cabia enquanto eu amamentava o pequeno. Eu estava de coração partido mas o que eu poderia fazer? Agora ela era a irmã mais velha.

Minha primogênita vem cumprindo seu papel com primazia. É a brincadeira que tem que ser mais boba para o irmãozinho poder brincar, é o passeio que tem acabar para ele poder dormir, a coragem que tem que surgir para defender o pequeno, o cafuné rápido já que o Gael só dorme com a mamãe do lado. Faz dois anos e meio que a Maria protege, cede, repensa e articula pelo irmãozinho.

Muitas vezes me perguntei se esse processo todo não é duro demais para ela. Meu marido, que é muito melhor em racionalizar as coisas do que eu, argumenta que a Maria teve nos seus primeiros anos de vida, um nível de atenção que o Gael nunca teve e nunca terá, já que ela foi filha única por dois anos. Se por um lado, ela teve que se adaptar a ter menos, ele já nasceu com menos. 

Eu, meus irmãos e nosso principal objeto de disputa: nosso pai. 

Eu, meus irmãos e nosso principal objeto de disputa: nosso pai. 

Meu marido tem toda a razão. Todo mundo leva sua carga familiar dependendo da ordem em que nasceu: primogênito, do meio, caçula, gêmeo... Nossos pais podem tentar aliviar, mas a carga é nossa e temos que aprender a lidar com ela seja ela qual for. É a vida.

Mas sabe que tem uma coisa que me consola quando eu penso na pouca disposição que tenho para brincar com o Gael e no papel de coadjuvante que a Maria com frequência tem de assumir: pelo menos eles têm um ao outro. E eu espero do fundo do coração que no caso deles seja como foi para mim e para os meus irmãos.  Depois que todo mundo sobreviveu, o que mais mais importou foi ter tido com quem contar.

 

Camila Furtado é a mais velha de 5 irmãos do mesmo pai e de duas mães diferentes. Até hoje, ela e os irmãos disputam ferozmente o amor e a atenção do pai sensacional que têm. Eles chegam ao absurdo de pedir para o pai fazer listas de preferências. Camila sempre acha que ganha na categoria: "com quem o papai se abre mais", mas é claro que eles vão discordar.  

 

Ele não é mais o meu bebê, e agora?

Ele não é mais o meu bebê, e agora?

Quem nunca chorou com um recém nascido no colo?

Quem nunca chorou com um recém nascido no colo?