O amiguinho do meu filho tem síndrome de Down

O amiguinho do meu filho tem síndrome de Down

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Lendo um texto publicado neste blog (“Ensinando aos filhos a derrubarem os muros do preconceito") me lembrei de uma história que sempre me emociona, não importa quantas vezes me lembre dela.

Aconteceu com Fred, meu segundo filho, quando ele tinha 8 anos, numa festa de aniversário. Apesar do meu olhar de leoa, observando de longe para ver se tudo estava bem, deixei que ele ficasse à vontade para se divertir.

Logo depois do "parabéns" e do bolo, quando nos preparávamos para ir embora, uma mãe se aproximou de nós, com os olhos cheios d’água. Levei um susto. Ela disse que queria me parabenizar por eu ter um filho tão gentil. Entre lágrimas, ela falou que o filho dela tinha síndrome de Down e que pela primeira vez na vida ele tinha encontrado um amiguinho que o tratou como uma criança qualquer.

Confesso que havia percebido que a criança que estava brincando com meu filho devia ser um ano mais velho e que tinha Síndrome de Down. Só que isso pra mim não fez a menor diferença. Mas para aquela mãe tinha feito muita diferença: me disse que estava cheia de alegria no coração porque nunca viu seu filho se divertir tanto! Ela estava feliz porque o filho fez um amiguinho do jeito mais natural possível: sem julgamentos, sem estranhamentos, sem dificuldades. Ou seja, sem o preconceito do mundo adulto. Aí ela me abraçou, começou a chorar e eu também chorei. Choramos juntas por alguns minutos. Eu: por sentir, naquele abraço, a dor que morava naquele coração de mãe, resultado de tantas rejeições e comportamentos preconceituosos, ora velados, ora despudorados. Ela: por ser uma mãe que, como todas as outras, queria compartilhar as alegrias do seu filho e não apenas os sofrimentos e constrangimentos pelos quais passava.

Não cheguei a comentar nada com o Fred pois ele era muito pequeno e eu não queria explicar o que era preconceito. Explicar para ele tudo o que eu não queria que ele fosse. Mas senti orgulho e alegria de perceber a pureza de coração do meu filho, que até hoje me encanta com suas posturas idealistas.

Encarar as diferenças com amor e respeito sempre foi uma regra na minha casa. A começar pela quantidade de filhos com os mais variados gostos, temperamentos e idades (28, 26, 21, 10 e 5). Mas é um pouco difícil falar dessa forma, pois a própria ótica da diferença já é discriminatória. Educar é ensinar que somos todos diferentes, imperfeitos e que tudo o que queremos na vida é sermos amados, aceitos. É isso que sempre passei para eles.

O Fred, por conta do contexto da época, estudou numa escola inclusiva muito interessante, que recebia crianças especiais e as colocava nas classes de acordo com a idade de seu desenvolvimento intelectual (às vezes não coincidente com o físico). A convivência com pessoas diferentes, especiais, não era anormal para meu filho, nem para mim. Ele não fez esforço algum para brincar com o novo amigo naquela festa, porque na cabecinha dele o que interessava era a diversão.

Isso aconteceu há 15 anos. Nunca mais encontrei com essa mãe, nem sei o nome dela. Mas minha percepção é que caminhamos muito no discurso e pouco no coração, pouco no acolhimento das diferenças.

Não descuido de plantar no coração de todos os meus filhos o respeito absoluto por todas as criaturas respirantes! E se uma grande alegria eu tenho, muito maior que todas as relacionadas a minha carreira profissional, é a de perceber que todos eles têm um coração imenso, cheio de luz e de boa vontade com o próximo.

 

Esse texto foi enviado por uma leitora e editado para a coluna Mães Anônimas. Agradecemos nossa leitora por compartilhar sua história conosco.  

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