A maternidade em um piscar de olhos (ou 5 x dia 11 de novembro)

A maternidade em um piscar de olhos (ou 5 x dia 11 de novembro)

Maria: só orgulho com a sua lanterna edição 2013

Maria: só orgulho com a sua lanterna edição 2013

Dia 11 de novembro é dia de São Martinho de Tours. Em algumas regiões da Alemanha no dia de Sankt Martin, as crianças participam de uma espécie de desfile para celebrar o santo. Uma missa é celebrada e depois as crianças percorrem um trecho a pé cantando músicas e segurando uma lanterna. A lanterna, elas mesmo fizeram, semanas antes, com os pais ou com as professoras nas escolas. Geralmente, depois da caminhada, todos se reúnem para uma pequena festa. É uma tradição bem querida por essas bandas.

Esse ano nos reuniremos no jardim de infância das crianças, onde haverá comes e bebes, uma fogueira e um Sankt Martin chegando com sua capa vermelha montado em um cavalo.

Meus filhos estão animadissímos. Já eu, apesar de achar tudo muito fofo, tenho que fazer uma certa força para me conectar com essa tradição que não vivi na minha infância. Seria bem mais fácil para mim pintar umas sardinhas na cara e pular a fogueira iá iá, mas enfim...

Enquanto preparo o café da manhã, na tentativa de me conectar com o desfile das lanternas, me lembro dos meus dias de Sankt Martin passados.

Na primeira vez que meu radar captou um desfile de Lanternas, há 5 anos atrás,  eu estava grávida da Maria voltando do trabalho. Achei uma gracinha aquelas crianças cantando e segurando as lanternas e agradeci mais uma vez a Deus por, depois de enfrentar dois abortos espontâneos, a vida haver me concedido a graça de algum dia poder participar do desfile da lanterna com minha própria filha. Mas por mais tocada que eu estivesse, não podia ficar ali. Tinha que correr para casa e dar os toques finais em um trabalho do MBA que eu fazia na época.

No ano seguinte, não teve lanterna para mim. A Maria tinha 10 meses e estávamos passando umas férias prolongadas no Rio. Que maravilha. Terra amada. Família. Finalmente não estava mais sozinha e podia baixar a guarda. Mãe, vou tomar um banho de mar, você olha a Maria?

No dia de Sankt Martin de 2010, visitei esse apartamento que moro hoje. Eu estava grávida do Gael. Por coincidência, marquei com o corretor no horário que o desfile estava passando pela minha rua. Entre dezenas de crianças e lanternas, achei o bairro um pouco suburbano e distante demais para quem estava acostumada a morar perto de crème de la crème do agito em Colônia. Eu ia sentir falta do meu bairro. Ninguém podia chegar em bares, festas e cafés descolados de maneira mais prática do que eu, era só descer. Mas fiz uma reflexão sensata: com uma filha de um ano e pouco e outro filho na barriga, os próximos anos (ou a próxima vida?) não ia ser de muito balada. Pegamos o apartamento, era ótimo.

No ano seguinte, o Gael já tinha nascido. Dexei ele em casa com o meu marido e fui para o desfile só com a Maria. Dizem que quando o mais novo chega, a gente precisa fazer uns programas exclusivos com o filho mais velho. O mais velho tem que saber que ainda existe "você e ele" apesar da chegada do irmãozinho. E eu, que tentava freneticamente ser uma boa mãe, e seguia o manual à risca, usava qualquer oportunidade possível para tentar apaziguar o ciúmes da Maria. O que eu estava também freneticamente precisando saber era se algum dia iria existir outra vez um "só eu". Junto comigo e com a Maria, estava a Susana, uma amiga portuguesa, e a Laura, filha dela. A Susana também tinha dado a luz ao segundo filho há alguns meses. Nos conhecemos grávidas e foi uma benção podermos contar uma com a outra naqueles meses em que passávamos pelas mesmas coisas. A Susana sempre encarou a vida de uma maneira bem mais prática do que eu e me incentiva a afugentar qualquer indício de mãe mártir. Na festa de Sankt Martin, ela tomou mil vinhos, eu não, voltei correndo para casa. (E se o Gael estivesse precisando de mim?)

No dia 11 de novembro de 2012 eu estava em Barcelona. Sozinha. Gael tinha um ano e meio, Maria quase 4 anos. Eu estava surtada de cansada.  Deixei as crianças com meu marido e minha sogra e fui passar o final de semana na casa de um amigo. Fui meio com o coração partido, nunca tinha me separado do Gael, e naquela época eu ainda tentava incorporar uma certa onipresença materna. Mas mesmo assim fui porque estava a ponto de ter um ataque de nervos. Meu marido me incentivou, meu amigo me acolheu e foi provavelmente a melhor coisa que eu fiz por mim o ano inteiro. Dormi, corri, enchi a cara, revi amigos. Voltei para casa, morrendo de saudades das crianças e me sentindo a mulher maravilha, de tão revigorada que eu estava.

Hoje, um ano depois, estou aqui. Escrevendo um post para o blog... Meu Deus, agora eu sou de fato o estereótipo de mãe dos tempos modernos, até blog eu tenho, socorro! Confesso que poderia estar muito bem em Barcelona. Mas estou aqui e estou feliz de ver a animação das crianças com o dia de Sankt Martin. Hoje à noite, quando eu estiver tentando fazer o Gael andar no ritmo das crianças mais velhas, segurando uma lanterna cujo bastão tem praticamente o mesmo tamanho que ele, sem perder a Maria de vista, vou lembrar do que aprendi pensando nos meus dias de Sankt Martin.

Eu aprendi que é preciso aproveitar o dia de Sankt Martin. Aliás, é preciso aproveitar todos os dias. Quando foi mesmo que aquela executiva barriguda passou apressada pelas criancinhas fofas? Ontem. E amanhã? Amanha ela vai ver um desfile de lanternas passar pela rua e sentir saudades daqueles anos em que as crianças acordavam animadas por causa de Sankt Martin. E depois de amanhã, ela vai se enfeitar, sim, não é porque está velha que vai andar esculhambada, e vai sair feliz para acompanhar os netos no desfile das lanternas. Ou não. Talvez ela vá "pular a fogueira iá iá"... Vai saber o que a vida lhe reserva. Certo mesmo é só hoje. Então faça o melhor do seu dia da lanterna. Seja lá onde você estiver.

 

Camila Furtado é mãe de dois alemãezinhos, Maria e Gael. Ela tenta se conectar com tradições não vividas, canta músicas indecifráveis, e faz amizades com mães que nunca entenderão porque ela não tinha idéia que depois da festa de Sankt Martin as crianças ainda tocam nas portas dos vizinhos para ganhar tangerinas (?!).

Porque eu não me importo de ter chegado nos 40

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