Quando os Bubble Guppies quase abduziram minha filha

Quando os Bubble Guppies quase abduziram minha filha

Há um mês comecei uma tarefa que de cara pensei que iria me dar muito trabalho e que seria quase impossível: fazer minha filha de dois anos e meio se desgrudar da televisão.

Já há algum tempo, começamos a notar que na frente da TV, Alice não era mais a mesma: não respondia o que a gente perguntava, não dava a mínima importância se alguém chegava, não percebia mais nada além da programação infantil. Estava abduzida pelos Bubble Guppies, hiptonizada pela Olívia, seduzida pela Peppa Pig, encantada pela Lalaloopsy e virou melhor amiga da Dora! Sabia de cor a programação do Nick Jr!

Sim, a culpa era minha de ter começado a liberar a TV a ponto de não existir mais hora de desligar. Admito o meu comodismo que fez com que as coisas chegassem nesse ponto. E sim, eu, no início, achava uma graça ela saber os nomes de todos os personagens e até contar a respeito das histórias.

Pra mim e para o meu marido, televisão sempre fez parte da casa. Gostamos de séries, noticiários, programas de entrevista, novelas. Eu mesma passei boa parte da vida trabalhando em telejornais. Além disso, o comportamento do meu filho mais velho diante da TV nunca foi igual ao da Alice. Nunca houve proibição, desde que os programas fossem apropriados à idade. Mas desta vez foi preciso tomar uma atitude.

E não é que, surpreendentemente, tem dado certo? No início, a frase de ordem dela desde que acordava era: "Liga a televisão pra mim!". Aí, com sangue frio, eu avisava: "Não, Alice, a TV não vai funcionar agora. Ela vai ficar desligada!". A reação de choro aconteceu, claro, mas não durou muito. Com o passar dos dias o choro foi diminuindo. Agora ela não chora mais apesar de, às vezes, ainda pedir para ligar a TV. Mas eu diria que ela hoje já está conformada e eu estou bem aliviada.

No lugar da TV, Alice redescobriu o mundo à sua volta. Voltou a brincar mais: de dar papinha para a boneca, desenhar com o giz de cera, montar quebra-cabeças. E está adorando a massinha de modelar e as brincadeiras de bola e de pique-esconde com o irmão.

Não foi do jeito que eu pensei: de que sem a TV eu não saberia o que fazer com ela. Pelo contrário, ela mesmo tem buscado inventar o que fazer, sem stress, sem dar trabalho. É impressionante como as coisas mudaram para melhor sem a TV ligada o tempo todo. É claro que ela ama quando assiste a um dos desenhos preferidos, mas agora ela sabe que vai ver um programa e não toda a programação!

Por coincidência, no mês passado, a American Academy of Pediatrics (AAP) divulgou uma nova nota sobre o uso de televisão por crianças. Já que é praticamente impossível no mundo de hoje, as famílias se livrarem das mídias eletrônicas, a sugestão é que haja um plano, ou seja, que os pais priorizem programas educacionais e arranjem estratégias para o tempo de uso. A AAP orienta que até os dois anos de idade, a criança não deve ser exposta à tela de uma TV ou de qualquer outra mídia. E após os dois anos de idade, o tempo deve ser limitado entre uma e, no máximo, duas horas por dia. Além disso, a AAP considera inadequado televisão no quarto das crianças.

Ok... Não é de hoje que televisão é vista como um bicho papão. Mas sempre é tempo de refletir. Não foi por causa da recomendação da AAP que as coisas mudaram por aqui. É que algumas consequências ruins da TV eu pude comprovar na prática com a Alice. A televisão não foi eliminada, mas optei pelo bom senso. E na sua casa?

 

Fabiana Santos é jornalista e mora em Washington-DC. É mãe de Felipe, de 8 anos, e de Alice, de 2 anos. A mais nova aquisição da família, para diversão dentro de casa neste inverno, foi um mini pula-pula, instalado bem no meio da sala de TV.

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