Só quem tem filhos, entende

Só quem tem filhos, entende

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Cena 1: Você chega em um restaurante com a sua filha de dois anos. A hostess imediatamente te acomoda em uma mesa, um garçom te avista lá de longe e já vai trazendo o cadeirão. Ele ajuda a dobrar o carrinho, e some com os talheres, vasinhos e velinhas da mesa. Rapidamente, traz um copo d’água de plástico, com tampa e canudo para a criança, papel e lápis-de-cera. Você olha para o garçom e pergunta: “quantos anos tem os seus filhos?” Pela atitude, ele nem precisa dizer que ele é pai. 

Cena 2: Você chega em um restaurante com a sua filha de dois anos. A hostess te deixa esperando por alguns minutos, que parecem uma eternidade, quando a criança começa a se remexer no carrinho, tentando se libertar do cinto. Você chega à mesa, e cadê o garçom? Nisso a criança já está em pé na cadeira, prestes a alcançar a faca e enfiar o dedo na vela. O garçom chega, não pergunta se você quer o cadeirão e coloca dois copos de vidro cheinhos d’água na mesa: um pra você. Outro pra criança. Bem-vindo ao inferno. O sujeito não é pai. E não foi treinado pelo restaurante.

Seres humanos com filhos se reconhecem nas ruas, como se fossem do mesmo clã, da mesma maçonaria. Sim, rola aquele olhar de solidariedade quando dois carrinhos se cruzam. Só quem tem um mini ser humano para cuidar, entende. Não. Não adianta você me falar que já foi monitora de colônia de férias, professora de natação infantil, assistente de palhaço em festinha de aniversário. Nada ensina a função mais nobre que é a de proteger uma criança dela mesma por 24 horas. Só pais chegam em um ambiente novo e passam um olhar-radar de segundos, rastreando quinas de mesa, tomadas abertas, vasos de vidro; estou descrevendo, claro, a sala de estar de quem não tem filhos pequenos. Aí você tira o vaso do lugar, arrasta a mesa perigosa pro canto, tapando a tomada; espalha os brinquedos no chão e está tudo resolvido. Sem dó. 

Ainda assim, existem as diferenças culturais. Preciso falar que hoje, aos 3 anos, minha filha já graduou dos riscos do restaurante, come que nem uma mocinha e arranca suspiros das mesas ao lado quando seca a boca com guardanapo de pano. No entanto, ela está na idade dos “tantrums”  (ou ataques histéricos no bom e velho português). E já deu alguns nas calçadas do Park Slope, no Brooklyn, onde moramos. É coisa de cinema: as razões variam de um canudo que você abriu a um zíper que você fechou com a melhor das intenções – ELA queria ter feito. Ai passam os pais, aqueles americanos liberais, intelectuais do bairro, olham para ela, ali sentada na calçada gelada, depois olham pra mim, e falam, em voz baixa: “já passei por isso”, “segura firme que vai passar”, “os meus também faziam isso”. 

Obrigada pelo conselho, meus caros vizinhos; mas eu preciso de ajuda física. Alguém que a pegue no colo, porque eu não tenho essa força (lembre-se, ela vai espernear), e ainda tenho que cuidar do carrinho. Também imploro por um motorista de táxi pai, porque, nestas horas, se eu precisar entrar no carro dele com ela chorando, com sacolas e carrinho, ele vai entender. Mas não. Nos EUA ninguém toca em ninguém, muito menos nos filhos dos outros. Eles assistem `a tragédia alheia, e só. No Brasil, onde as crianças pertencem a todos, tenho certeza que eu poderia pedir ajuda a passantes com cara amiga, que eles me dariam uma mão. E o braço também.   

 

Tania Menai é jornalista em Nova York há 18 anos e mãe de Laila, que se comporta com toda a etiqueta nos restaurantes mas perde o rebolado se alguém tenta lhe ajudar a fazer o que ela está determinada a fazer sozinha.

Uma cidade que pensa nas crianças

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