A bolha em que se vive quando se tem filhos pequenos

A bolha em que se vive quando se tem filhos pequenos

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Há algumas semanas fomos convidados para um churrasco na casa de um casal de amigos. A babysitter não podia naquele final de semana, não temos família por perto, então o jeito era levar a dupla dinâmica. Os anfitriões foram bem legais e atenderam o meu pedido de adiantar em 2 horas o horário marcado inicialmente, para que não ficasse muito tarde para as crianças. Éramos os únicos convidados que tinham filhos. 

No dia anterior, eu e meu marido já tínhamos a estratégia – de guerra – bem planejada: as crianças iriam tirar uma boa soneca à tarde, chegariam bem-humoradas e no ponto para desfrutar da paciência e do carinho dos nossos amigos e, depois de umas horas, quando a coisa começasse a ficar preta, era só escovar os dentes, vestir pijama, carro e cama.

No dia do churrasco, contudo, a Lei de Murphy materna entrou em ação: milagrosamente as crianças acordaram às 8 da manhã. Praticamente 2 horas mais tarde do que o normal. Seria motivo de muita comemoração se não fosse por um pequeno detalhe: tendo dormido tão bem, ninguém queria tirar soneca à tarde. Plano por água abaixo. 

Esforçamo-nos para desenvolver um plano B. Mas parecia que quanto mais a gente tentava se organizar para ser pontual e/ou cansar as crianças para elas dormirem, mais as coisas saiam do controle. Sabe aquela história de que quando você está prontinha para sair o bebê faz cocô? Então, o dia inteiro estava assim.

Só para dar uma ideia do clima tensão pré-churrasco, quando faltavam mais ou menos 20 minutos para o horário marcado eu tentava me maquiar dividindo o banheiro com meu filho de 2 anos, cujo objetivo principal era alcançar a escova de limpar o vaso sanitário e gritar touché (em cima de mim, claro). A mais velha estava no quarto, fingia que dormia, mas na verdade tinha surrupiado um esmalte meu e estava pintando as unhas embaixo das cobertas. E meu marido estava no supermercado fazendo umas comprinhas de urgência para o final de semana. 

Pensei em ligar para minha amiga com uma voz que refletisse bem minha decepção. Pensei em tentar fazê-la entender que as crianças sem a dormidinha da tarde iriam surtar no churrasco. Que meu filho não queria dormir, só queria fazer touché, que eu mesma já estava surtada, mas a verdade é que furar não era uma opção. Já tínhamos furado da última vez e deve haver um limite na quantidade de desculpas relacionadas com filhos que pessoas sem filhos podem tolerar. No caminho, meio arrependida de ter aceitado o convite, eu concluía que o mais sensato até as crianças ficarem mais velhas seria sossegar o facho e me conformar com o fato de que aos sábados à tarde meu lugar é no parquinho.

Assim que chegamos parei de me arrepender. Nossos amigos nos receberam com grandes sorrisos. Pareciam nem ter notado que, apesar de eu ter pedido para adiantar o churrasco, cheguei depois de todo mundo, bem atrasada.Tinham até providenciado uns brinquedos para as crianças.

Todo aquele estresse que a gente tinha passado para chegar lá não existia naquela atmosfera de pessoas bem dormidas e com roupas da moda. Cada um bebericando seu drinque, sem pressa para comer, jogando conversa fora. Tratei de fazer como todo mundo: peguei um drinque, tentei jogar conversa fora, só fiquei é bem ligada no churrasqueiro para pegar o primeiro pedaço de carne e cortar em pedacinhos bem pequenos, afinal a duplinha tinha fome. Mas sabe que quando me dei conta, eu já estava conseguindo sair da bolha? De qual bolha estou falando, cara leitora? Aquela na qual entramos e dificilmente saímos quando somos pais de crianças pequenas.

A bolha em que só existem temas como noites mal dormidas, febre, preço de fralda, linha pedagógica da escola, vacinas. E ninguém melhor do que essas pessoas que nem imaginam como é viver na bolha para te tirar dela. Até porque esses amigos têm esse dom especial de, apesar da boa vontade de muitos, não compreender 100% como você pode ter passado de uma pessoa tão cool para alguém que tem coragem de sair com um restinho de papinha que secou na calça jeans. 

E sem entender essas coisas direito, eles insistem em conversar com você sobre a viagem deles para as Maldivas. “Você não pode imaginar como pode ser entediante estar nas Maldivas, largado ao sol, sem fazer nada. Minha sorte é que eu mergulho”, me confidenciou naquela noite o marido de uma amiga, com uma cara descansada de fazer inveja. Mas, apesar do choque de realidades, se não fosse só o fato de que todos nós temos amigos queridíssimos que não são e talvez nunca serão pais, é bacana encontrar esses amigos livres, leves e soltos. Eles nos forçam a pensar fora da bolha. E, convenhamos, existem tantas coisas divertidas e merecedoras da nossa atenção no mundo além dos nossos filhos. É que, convivendo com tanta fofura (e tendo, pelo menos no meu caso, um cotidiano digno de estivador), nós esquecemos do mundo.

Não ficamos muito no churrasco. As crianças estavam meio enjoadas. E, no dia seguinte, com certeza não iriam dormir até as 8 da manhã. Mas, apesar de tudo, aquela noite me fez bem. No meio dos meus antigos companheiros de aventuras, me dei conta que ainda existe, sim, apesar de meio apagada, uma “eu” além da bolha. E um dia, com as crianças mais crescidas, eu também vou chegar numa festa com cara bem dormida e roupa da moda contando aventuras de fora da bolha.

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