É Natal, mas o meu Papai Noel está ameaçado de extinção

É Natal, mas o meu Papai Noel está ameaçado de extinção

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Quando eu era pequena, o Papai Noel era um velhinho que morava no Pólo Norte e trazia presentes para todas as crianças que tinham se comportado direitinho. Na madrugada do dia 24, ele entrava pela chaminé e ao acordar no dia seguinte, eu e os meus irmãos encontrávamos nossos presentes na árvore. Algumas vezes era até possível achar evidências de que ele, de fato, esteve ali.  Um móvel fora do lugar, um barulho que minha mãe tinha escutado durante a noite, houve até uma vez que ele esqueceu uma bota na nossa casa.

Um dia, claro, eu comecei a ligar os pontos. Era impossível alguém entregar presentes para todo mundo em uma noite só. Desvendei o segredo, mas dexei, orgulhosa, meus pais iludirem meus irmãos mais novos por mais alguns anos. A mágica do Papai Noel é uma das memórias mais bacanas da minha infância.

Nunca tive dúvidas de que queria repetir tudo com os meus filhos. Mas confesso que não está sendo fácil, ando frustada, confusa até. Para começo de conversa,  somos uma família binacional: mãe brasileira, pai alemão. Se as tradições variam de família para família, imagine entre países.  No ano passado, meu marido não entendeu quando me viu colocando no correio uma carta endereçada ao Pólo Norte.  Ele achava que no dia 6 de dezembro as crianças deveriam engraxar uma bota, colocar dentro dela um bilhetinho para o Nikolaus e no dia seguinte, como prova de que ele leu o recado, elas encontrariam umas guloseimas dentro da bota. Bom, primeiro: quem usa bota naquele Natal de 40 graus do Rio de Janeiro? E depois... quem é Nikolaus???

Antes de ter começado com a história toda,  eu deveria ter arquitetado um script mais "globalizado",  que pudesse unir o natal dos Trópicos e o da neve. Somente com um roteiro na ponta da língua e rico em detalhes teria sido possível responder, sem pestanejar, às perguntas sobre a biografia do bom velhinho. Meu filho menor não questiona nada, tendo presente e não sendo necessário sentar no colo do Papai Noel, está tudo bem. Para lidar com a primogênita, contudo, eu deveria ter me preparado melhor. 

Uma coisa que vem me atrapalhando é a onipresença do Papai Noel. Sim, porque hoje em dia, nas semanas que antecedem o Natal, a gente encontra o Papai Noel em todos os lugares. No meu tempo, tinha o Papai Noel do único shopping center do bairro, e o Papai Noel do Maracanã, que vinha até de helicóptero, aparecia na televisão e coisa e tal. Era uma verdadeira sorte poder estar cara a cara com o velhinho. Atualmente, você corre o risco de encontrar um Papai Noel luxuoso no shopping e logo na sequência um outro, bem mais modesto, no supermercado. Minha filha tem só 4 anos, mas desisti de cara de tentar convencê-la de que todos os "papais noeís" são a mesma pessoa. Isso só seria possível se, além de ter trocado o modelito, entre um compromisso e outro, ele também tivesse feito lipospiração e ido ao barbeiro. Afinal, o tamanho da barriga e da barba varia muito....

Outro dia estávamos comendo num restaurante e o Papai Noel estava lá. Maria até tentou acreditar nele, mas depois de 5 minutos me puxou de lado e comentou que dava para ver que ele tinha cabelo preto. Como se o descuido do bom velhinho não fosse suficiente, na hora que estávamos saindo do restaurante o Papai Noel já tinha encerrado o expediente, tirado barba, peruca e estava batendo o maior pratão ainda vestido de calça vermelha e botas...   "Ih, mamãe, olha o papai Noel ali!" Na tentativa de salvar a magia natalina, abri para a Maria, que sim, existe gente que se veste de Papai Noel. Mas sim, com certeza, existe um Papai Noel de verdade, o legítimo! "Sei..."

Só que nada vem sendo tão difícil como a parte de ser boazinha...

Eu passava o ano inteiro - foco em novembro e dezembro - tentando ser uma boa menina com medo de que eu tivesse problemas no Natal. Posso me lembrar claramente das ameaças: mentiu, não comeu tudo, bagunçou, fez malcriação, já era. O problema é que, mais uma vez aqui, as coisas mudaram. Nossa geração, de pais praticamente formados nas mais diversas linhas pedagógicas, não chantageia os filhos com tanta facilidade. Eu me sinto ridícula, pior, eu me sinto cometendo um pecado toda vez que essa ladainha sai da minha boca.

Ainda assim, na tentativa de produzir na minha filha, o mesmo efeito mágico que foi produzido em mim, me mantive firme. Ela tem que se comportar. E foi aí que a coisa degringolou mesmo. A Maria, que diga-se de passagem, já é bem boazinha, entrou num modus "bondade fake total". Ela anda fazendo elogios exagerados a minha pessoa,  desarruma o quarto só para poder arrumar na sequência, passa a mão na cabeça do irmãzinho mais novo a cada 5 minutos.  Sei lá, comecei a ter a maior pena dela fazendo aquele teatrinho, principalmente, quando em um ato de descontrole repentino a máscara cai e ela ficava morrendo de medo do Papai Noel ter visto.

Diante de tantas discrepâncias, lapsos e a minha falta de convicção necessária para manter a mentira em pé, eu estou achando que quem na verdade está tentando me enganar é a Maria. Ela já deve ter sacado tudo e está mantendo o joguinho para ganhar seu presente.

 Minha falta de jogo de cintura para manter o Papai Noel vivo, contudo, não se compara com a de um pai que vi nas Lojas Americanas outro dia. O sujeito estava com as duas filhas, de uns 4 e 6 anos, em frente às prateleiras das Barbies. Ele perguntava se era mesmo a Barbie Borboleta que elas queriam: "Tem certeza? Porque não vou dar para vocês agora, só no Natal."  "E o Papai Noel, o que ele vai dar?" perguntou uma delas meio indignada. "Não, vocês não estão entendendo. A Barbie é o presente do Papai Noel. Eu estou só ajudando o Papai Noel: eu compro, guardo e na noite de Natal ele dá para vocês." Aí também foi demais, né?  Nem com muita boa vontade dá para acreditar no bom velhinho assim.

 
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Camila Furtado é formada em publicidade e mora na Alemanha com os filhos e o marido. Ela se deu conta de, que desde que deixou de acreditar no Papai Noel, alguma coisa mudou. Em um mundo cada vez mais abarrotado de bens materiais, talvez, a grande mágica agora seja fazer as crianças acreditarem que no Natal precisamos de verdade agradecer e não pedir.

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