Mãe: você ainda vai lidar com uma

Mãe: você ainda vai lidar com uma

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Nada nos prepara para a maternidade. Mas ninguém te conta que nada, nadica-de-nada, nos prepara para um outro grande desafio: o de lidar com outras mães. Sim, as outras mães de filhos da mesma idade que os seus, passando pelas mesmas alegrias e perrengues que você. Pessoas que você talvez ainda nem conheça, mas que vão entrar na sua vida ao longo dos anos. Então já que ninguém colocou as dicas na sua listinha de chá-de-bebê, vou fazer este favor e descrever alguns dos tipos mais comuns - lembrando que todas sempre tentam dar melhor de si, portanto devemos respeitá-las da forma como são, e selecionar as que mais combinam com o nosso estilo.

Logo que o bebê nasce, nascem também os grupos de mamãe-e-bebê: seja na yoga, nas reuniões de lactantes, ou encontros de mães do seu bairro, muito comum no Brooklyn, em Nova York, onde moro. Todas estão ali, descabeladas, exaustas, com cara de ponto-de-interrogação. Aqui, pelo menos, ninguém quer ficar a sua amiga – elas querem saber como você faz o seu bebê arrotar, e pronto. Mas a coisa começa a ficar alarmante quando você entra em algum grupo de mães de mídia social. Ali figuram as mães-carentes. Entendemos que esta é uma fase solitária da vida. Mas não entendemos posts como: “há dois dias meu filho está verde, vomitando azul, empipocado com bolinhas amarelas. Meninas, alguém tem uma dica?” Com o filho nesta situação, qual mãe tem tempo de entrar na internet, senhoras e senhores? Não seria melhor já estar no pronto-socorro? E que tal ligar para um pediatra? Só uma sugestão. (Mas não sugira, não – você será atacada pelas demais mães-cibernéticas: elas sempre tem uma pomadinha infalível).

 Aí a criança cresce. E começam as festinhas de um, dois, três anos. Graças ao bom senhor, aqui em Nova York não há competição de quem vai fazer a festa que mais se assemelhe ao último desfile da Mangueira. Bastam piqueniques e festas pequenas, que duram de duas a três horas, com mães e pais e nenhuma babá, amém. Tampouco os presente precisam impressionar. Mas cuidado para não ser uma mãe-gafe: tente não repassar um presente que o seu filho recebeu na festa dele, para a criança que deu o tal presente – sim, já recebi um desses. Adorei, porque fui eu quem escolhi – e a mãe nunca se deu conta. Continua grande amiga.

Como nesta idade a sua criança ainda não é deixada sozinha, é claro que você vai tentar marcar saídas e visitas com as mães com as quais você tem mais afinidade. No entanto, cara leitora, `as vezes, as crianças não se bicam. Que lástima: a mãe é tão bacana e descolada, como o filho pode ser tão irritante? Será que puxou ao pai? Enfim, descartado. Ai vem a mãe-dieta, cuja criança não come fora de casa, porque está proibida de tocar qualquer alimento que não seja tofu, aspargo ou melancia. Glúten nem pensar. Fica complicado estender a brincadeira para um almoço ou jantar. Ao mesmo tempo, tem a outra criança, filha da mãe-não-estou-nem-ai, que não come nada que não seja macarrão acompanhado de nuggets. Também complica, já que o rebento nem sabe qual a cor de um tomate. Nem vou falar das mães-sutiã, aquelas que amamentam até os três anos, para não sair do sério.

Tem a mãe-relógio, que volta para casa de onde estiver aos exatos meio-dia e dezoito porque ao meio-dia e quarenta e três a criança vai dormir, e tem que ser na cama dela, com a cortina fechada pela metade, porta entreaberta e a lâmpada de estrelinhas. No carrinho, ele não dorme. Em contrapartida, você também não escapa da mãe-noitada, que convida o seu filho pequeno `as 6.30 da noite para jantar, achando que depois de um dia de brincadeira, ele vai ficar pianinho, e o cansaço não vai acabar em piti na casa alheia. Erro. Vale lembrar da mãe-helicóptero (expressão americana) que sobrevoa o filho, inclusive na hora em que ele está brincando com outra criança, e aprendendo a lidar com os árduos dilemas de dividir e emprestar. Às vezes, eles tem que se entender sozinhos. E já viram a mãe-antisséptica? Aquela que esfrega tudo a toda hora, como se infância fosse impecável como um catálogo de moda infantil. São os filhos dessas senhoras que vivem no médico, por nunca terem encarado um germe. Nem unzinho!

E já falei da mãe-tralha? Aquela que tem um carrinho por semestre, brinquedos que precisariam de oito infâncias para serem aproveitados, e quatorze modelos de cadeirão? Na casa dessa você não anda, você pula. E atenção para a mãe-pode-tudo: essa se recusa colocar limites no filho e os entregam para Deus. Também entregam pras outras mães, como você, que além de cuidar do seu filho, tem a injusta tarefa de ter puxar a orelha do dela. Veja bem: eu adoro o Menino Maluquinho - contanto que ele não saia do livro do Ziraldo. E tem, claro, a mãe-sumiu, essa espécie mais conhecida em terra brasilis: são mães sobre as quais não posso elaborar, porque nunca as conheci: vê-se apenas babás, mesmo nas horas vagas e fins-de-semana. Pena. Estas mães não sabem o que estão perdendo. Mas seus filhos sabem.

 

Tania Menai é jornalista, vive em Nova York há 18 anos e se considera uma mãe-hoje-não-precisa. Ou seja,  hoje não precisa tomar banho, hoje não precisa comer todo o brócolis, hoje não precisa dormir tão cedo, porque ela está em paz com o fato de que nenhuma mãe é capaz de ganhar todas as batalhas, todos os dias, o dia todo. O segredo é escolher as batalhas. 

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