A vida sem empregada

A vida sem empregada

Morar fora do Brasil significa muitas vezes abraçar o estilo de vida da classe média de países com a distribuição de renda mais justa que no nosso. Trocando em miúdos, em um país onde praticamente todo mundo pode estudar ou fazer um curso superior e ter com isso uma vida bem ok, ninguém quer limpar sua privada, nem cozinhar para você por pouco dinheiro. E a vida acaba sendo como ela deveria ser: caso você não seja milionário, você cuida de você e da sua casa.

Eu nunca senti muita falta das mordomias do Brasil. Eu me sinto bem de viver em uma sociedade mais justa e não depender de ninguém. Além disso, os europeus são desprovidos de várias frescuras que a gente tem no Brasil, os produtos de limpeza são super específicos e eficientes, a vida em cidades menores é menos complicada e o mais importante: os homens estão acostumadissímos a dividir as tarefas domésticas e pilotar o fogão.  

Tudo estava indo muito bem até as criancas nascerem. Quem tem filho pequeno sabe o potencial bombástico da bagunça de uma casa se não tiver literalmente alguém o dia inteiro correndo atrás do prejuízo. Além do que, aquela saladinha que você fazia para você e seu marido à noite, não atende mais as exigências gastronômicas da família.

Algumas famílias que eu conheço, e a nossa também, paga um bom dinheirinho para ter ajuda durante um x de horas por semana, essa ajuda vai de desde pegar seu filho na escolinha até limpeza, roupas, cozinha... mas note que são algumas horas,  o resto é contigo mesmo.

E o "resto" não é pouco... é dureza.  Atualmente, eu me revezo entre dois estilos de administração doméstica: a) apenas o essencial para que continuamos nos alimentando com higiene e achando nossas roupas de manhã ou b) louca neurótica que usa absolutamente todo o tempo livre para arrumar e cozinhar saudável.

A verdade é que a gente tem que se desfazer de antigos costumes da terrinha e se despedir para sempre de ideais de administração do lar que só são viáveis no Brasil. Eu me lembro que a minha irmã, que é a mãe mais super organizada/limpa/alimentação saudável que eu conheço, depois de duas semanas de férias aqui em casa estava dando graças à Deus que a filha tinha almoçado pipoca: "pelo menos ela comeu, né?"

Quando eu vou visitar minha família e amigas no Brasil e vejo aquelas casas super arrumadas, com aquelas mesas postas pontualmente, com aquela comida super balanceada cozinhada pela empregada, me dá um misto de sentimentos. Primeiramente, claro, eu me alegro: que bom que alguém vai cozinhar para mim e eu nem vou precisar lavar a louça; depois vem uma certa frustação ao constatar que a não ser que eu abdique da minha vida pessoal e profissional para sempre, na minha casa nunca vai ser assim e finalmente dá, desculpe amigas, uma certa indignação. Esse estilo de vida só é possível porque no Brasil ainda existe uma sub sociedade que está ali só para servir outra. E todo mundo acha normal.

Mas as coisas no Brasil estão mudando e por mais que doa para que está acostumado, no futuro só quem realmente puder (e quiser) pagar muito por esse tipo serviço poderá se recusar a encostar a barriga no fogão e passar uma vassourinha no final da tarde.

Na prática, aqui na Alemanha as coisas só funcionam porque a casa é responsabilidade da família e porque as pessoas tentam simplificar o máximo seus estilos de vida.  Meu marido me conta que quando ele era criança, aos sábados a família inteira faxinava casa. Ele odiava mas sabia que só poderia ir brincar depois que a casa estivesse limpa. Na escolinha da minha filha de 4 anos depois que ela come, ela tira seu prato, passa uma água e coloca na máquina de lavar louças. Acostumados desde pequenos com os afazeres do lar,  todos (idosos, homens, crianças e mulheres) acham normal pegar no batente doméstico.

Ontem uma amiga me confessou que com o sol maravilhoso que estava fazendo -depois de um inverno tenebroso - ela ia aproveitar o final do dia com as crianças no jardim e á noite todo mundo ia comer macarrão com molho pronto. "Me recuso a cozinhar com esse sol".

Eu confesso, que agora com os filhos, eu sinto sim, muita falta das mordomias do Brasil. Mas eu sei que essas mordomias não são razoáveis. Elas são produtos de uma sociedade injusta. Eu tenho que tentar esquecer esse modelo decadente que só existe no meu passado e aprender a ser cada vez mais prática,  viver de um jeito mais simples e a aceitar que também dá para ser feliz sem ter tudo perfeito.

 

 

Uma gracinha, mas vai dar um trabalho para limpar...

Uma gracinha, mas vai dar um trabalho para limpar...

Hoje eu fui feliz

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