A descoberta da tristeza

A descoberta da tristeza

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No carro, a caminho da escola, olhei pelo retrovisor e percebi que algo não estava legal. Meu filho é uma criança alegre, risonha e com dois anos, está naquela fase de querer determinar tudo, sempre disposto a me desafiar. Vamos botar o sapato? Não. Vamos passear. Não. Vamos entrar no carro? Não. Vamos sair do carro? Não.

Mas naquele dia nem brigar ele queria. Entrou no carro, chorou um pouco sem qualquer motivo aparente, e ficou olhando a rua pela janela, com um semblante triste, totalmente caidinho...  Pensei que o humor melhoraria quando ele chegasse na escola, afinal ele sempre fica feliz quando vê os amigos, e sai correndo para brincar sem nem olhar para trás. Mas que nada. Dessa vez entrou, se agarrou nas minhas pernas e não quis conversa com ninguém.

Eu então o peguei no colo, fiz carinho, tentei dar uma animada, mas ele continuava calado. Os olhos fechados. A cabeça deitada no meu ombro.  No meio daquele abraço, me dei conta de que estava atrasada e o entreguei para a professora. "Tchau, Gael, a mamãe vai trabalhar", eu disse. Mas ele abraçou a professora e nem se virou pra dar tchau. 

Fui embora. Um pouco aliviada por ele não ter chorado e pelo aparente conforto que encontrou no colo da professora, mas com um sentimento estranho, um nó na garganta, o coração apertado... 

De volta ao carro, tentei me lembrar da última noite. Ele dormiu mal? Será que está ficando doente? Ele está com um pouco de tosse. Será que estava com febre? Me culpo por não ter colocado a mão na testa dele, antes de sair da escolinha. Agora não sei se ele estava febril. Vou tentando limpar meus pensamentos da culpa e da preocupação, mas eles sempre voltam. Fica em mim aquela sensação de que o mundo está girando torto e na verdade eu deveria voltar e pegar meu filho, pois nenhum trabalho é mais importante que aquela carinha triste.

Mas não volto. Tento racionalizar as preocupações. Me consolo pensando que se ele estiver mal vão me ligar da escola, e sigo para o trabalho. Talvez seja só tristeza, e bom, tristeza também faz parte da vida.

Dói, mas é importante que ele sinta isso. Não posso priva-lo de todas as decepções. Ele tem que desenvolver a capacidade de se levantar sozinho. Tem que saber enfrentar seus medos e voltar a encontrar a alegria. Eu não quero que ele seja fraco. Não quero que ele seja dessas crianças criadas numa bolha distante da realidade.

Sem um pouco de tristeza, nenhuma criança pode aprender que é melhor ser alegre que ser triste. Me lembro dos versos de Vinícius de Moraes. "Alegria é a melhor coisa que existe, é assim como luz no coração." Sem tristeza, filho, ninguém faz samba. 

Antes de começar a trabalhar procuro a música na internet. Escutar música bonita sempre me ajuda a afastar a tristeza ou pelo menos a enxergar a beleza dela. A beleza da sua tristeza, filho, é que eu te amo tanto, que quando você fica triste, eu fico triste também. Mas hoje te deixo sozinho, eu já aprendi a reverter os meus dias cinzentos, e você vai aprender a reverter os seus. 

Rir é o melhor remédio

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