Festinha de aniversário gringa

Festinha de aniversário gringa

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Estamos a caminho do aniversário de 4 anos da Marysol, uma das amiguinhas da minha filha. As festinhas aqui na Alemanha são bem diferentes das do Brasil: um esquema mais caseiro, longe de ser qualquer superprodução. Lembro da última que preparei para comemorar os 4 da Maria. Quase enfartei tentando acumular funções de cozinheira, anfitriã, garçonete, faxineira, babá e animadora, apenas uma semana depois de ter voltado de uma temporada de dois meses no Brasil. Foi um misto de falta de planejamento, pouca experiência e principalmente falta de tempo – as malas das férias estavam na sala até uma hora antes da festa começar.

Nós ainda não fomos a muitas festinhas por aqui, então estou curiosa para saber o que vou encontrar. Não conheço muito bem a mãe da aniversariante, mas ela tem cara de ter tudo sempre sob controle.

Entramos na rua indicada no convite: cheia de casinhas e sobradinhos encostados um no outro. Em um deles, dá pra ver um jardim cheio de balões. “É aqui, mamãe?”, Maria pergunta ansiosa. Deve ser, com tantos balões no jardim... Andando mais um pouco, percebemos que várias casas tinham cartazes pendurados na janela, todos desejando feliz aniversário à Marisol. Que legal os vizinhos enfeitarem a rua por causa do aniversário da menina. Ela deve ter ficado feliz de manhã, quando acordou.

Eis que chega a casa mais enfeitada da rua. Toco a campainha e atende uma mulher. Não é a mãe da aniversariante. “Bem vindos, podem deixar as jaquetas ali”, ela indica, e aponta para uma cômoda no corredor com uma pilha de jaquetas e gorros amontoados.

Minha filha avista os amigos e sai correndo em direção à sala. Eu vou entrando devagarzinho com meu filho mais novo. Os pais da aniversariante vêm me cumprimentar. Digo que não sei se vou ficar. “Preciso ir ao supermercado”, explico. Eles são prestativos com minha explicação: “Claro! Deixa a Maria aqui e vai tranqüila, mas volte a tempo de comer alguma coisa”. Eu amo essa cumplicidade dos pais por aqui. Todo mundo entende que você, com dois filhos pequenos, está ferrada e tem mais o que fazer do que ficar numa festa de aniversário de criança. Eles são tão legais que quase me arrependo de querer ir embora, mas eu realmente preciso ir ao supermercado, e sabe-se lá quando terei tempo para isso novamente. Antes de sair, olho para uma mesa grande na sala cheia de tortas salgadas e doces, uma salada de macarrão e alguns pãezinhos recheados... Tem também duas mesas baixinhas e decoradas para as crianças. Em cada uma delas há um mini buffet com coisas como um pepino esculpido em forma de jacaré, com língua de cenoura e patas de tomate cereja. Será que alguma criança vai comer? Pelo menos é uma tentativa válida... - Maria, tchau filha, já volto. - Tá, tá, tá. - Se você não gostar dessa festa pede para a mãe da Marysol me ligar, ela sabe meu número. -Tá, tá, tá. Ela não se importa de ficar sozinha, já gosta da festa.

Duas horas depois estou de volta. Paro o carrinho na porta da casa e tiro meu filho. “Você quer levar seu sapo?” pergunto. Não, melhor não. Com a quantidade de gente que tem na casa, vamos perder o sapo e ele vai precisar disso para dormir mais tarde. Entro na casa e vejo minha filha descendo as escadas de mãos dadas com a mãe da aniversariante. Está vestida de fada. A roupa é da Marysol e está bem apertada. Na minha filha o vestido é praticamente uma blusa. “Mamãe, mamãe! Eu ganhei na corrida de ovo na colher” conta enquanto me mostra feliz um saquinho com ursinhos de gelatina.

O pai da menina está enfrentando um super frio para ficar no jardim, cuidando da churrasqueira. Com um espeto na mão, ele entra na sala e grita - Quem quer salsicha? Já ficou pronta! E a batata está quase - Salsicha e batata, o máximo do estereótipo alemão -penso. A turma de 8 crianças, faz uma pausa na brincadeira e senta nas mesinhas para comer. A mãe da menina entra na sala com um suco e pergunta quem tem sede. “Eu!”, responde um menininho suado. “Cadê seu copo? Você perdeu seu copo?” ela pergunta. Nessa festa, cada um tem seu copinho, como nas festas de adulto aqui na Europa.  Meu filho esmaga com o pé uma bolacha no chão. Foi sem querer. Será que alguém viu? Um convidado abaixa para limpar o estrago, ainda bem que não deu tempo de ele perceber que minha idéia era deixar a bolacha ali.  Sento entre estranhos no sofá. “Você é brasileira?”, alguém pergunta. “A mãe do meu marido é colombiana”, diz a outra. “Ah, legal, igualzinho” penso. Conversamos e eu tenho que explicar o de sempre: não, eu nunca estive na Colômbia. Sim, eu falo espanhol, mas não é minha língua materna. Não, no Brasil não se fala brasileiro, mas português. E por aí vai... Acho que quero ir embora.  Está legal aqui, mas está tarde, o pequeno está ficando resfriado e precisa dormir. Festa de criancinha alemã nem sempre tem parabéns, por isso ninguém precisa esperar por isso pra ir embora. Consigo capturar minha filha: - Maria, agora chega, vamos embora. - Não, não, não. - Sim, sim, sim. O pai de uma outra amiguinha me socorre: - Maria, nós também vamos, todos estão indo. - Não! A mãe da aniversariante se aproxima e eu explico que estamos indo. - Sim eu percebi, e já que a Maria está indo, vai ganhar essa lembrancinha. Entrega para Maria uma sacolinha com balinhas, livrinho e carimbos. Tem uns ovinhos de chocolate também. Com certeza sobraram da pásoca -Obrigada pelo convite, que casa linda. - A Maria tem que voltar outras vezes, elas podem brincar no jardim, aproveitar o verão... Que verão? Aqui na Alemanha não tem verão -eu penso- mas digo que sim, claro... será um prazer. Percebo que estou saindo sem dar tchau para o pai da aniversariante. Volto para sala para me despedir. Beijo o pai. Não, de novo não! Por que depois de 7 anos morando na Alemanha, eu continuo beijando as pessoas na hora que eu chego e na hora que vou embora? É tão constrangedor... Agora é melhor eu beijar a mãe também para balancear.

Maria na bicicleta. Eu empurrando o carrinho de bebê. Maria conta da corrida de saco de batatas, de como ganhou a corrida de ovo na colher, e das histórias que o avô da Marysol contou com o fantoche. “Ma-mã-e, você comeu a sal-si-cha? ela pergunta aparentemente impressionada com o talento do pai da Marysol para grelhar salsichas.

No caminho de volta, vou pensando que essa mãe da Marysol sabe bem como fazer festas de aniversário alemã. Uma festa simples, mas íntima, divertida, com comida gostosa e crianças felizes. Uma festa para família, os melhores amiguinhos da escola e eventualmente alguns pais deslocados mas com boa vontade, como eu. Começo a pensar na festinha de aniversário da minha filha no ano que vem. Quero que seja uma festa muito gostosa assim como essa. Pode ter essa estrutura de festinha alemã caseira, mas tem que ter uns toques de superprodução do Brasil.  Veremos. Virar mãe em um país estrangeiro é uma experiência muito louca, você tem que ir aprendendo tudo junto com seus filhos. Mas não importa, a temporada de festinhas está só começando e tenho bastante tempo para pensar no assunto. Agora, uma coisa é certa: nem que seja no Polo Norte, nas festas dos meus filhos sempre vai ter parabéns... e brigadeiro!

As empregadas seguem no alto das paradas de sucesso

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Qual a sua paranóia?

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