Quando o espelho não mente

Quando o espelho não mente

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A mirada no espelho foi brutal. De repente, aquela barriguinha seca de bailarina era flacidez total. Não quis acreditar. “Essa aí não sou eu, deve ser Iracy”… Iracy, a gordinha que morava ao lado de minha mãe no Brasil.  Cumprimentei meu reflexo com um entusiasmo fingido: “Oi, Iracy, que surpresa te ver por aqui! Há quanto tempo! Quando chegou na Alemanha?” 

Iracy me fitava, calada. Parecia feliz em me rever. Sorriu, complacente com meu ar meio desorientado de mãe de primeira viagem. Seu olhar vagueava pelo quarto onde o bebê dormia, deslizando de um objeto ao outro. Ao fixar o meu ventre, exclamou: “Oh... O menino não tem seis meses e você já engravidou novamente?” 

Indignada com tanta maldade, deixei-a sozinha no espelho e fui amamentar meu filho. A barriguinha dele tinha prioridade, a minha podia esperar.

Não sei quantos anos esperou. Meu filho aprendeu a engatinhar, andar, a dar até salto mortal, enquanto minha vida dava cambalhotas. Troquei de casa, namorado, trabalho, e a minha barriga esperando… Às vezes roncava, não de fome, mas de raiva. Nunca fora tão negligenciada.

Enquanto isso, eu tentava animar Iracy, que se acomodara no meu reflexo: “Querida, descobri uma dieta excelente nesta revista, vamos experimentar?” Ela parecia não escutar. Eu queria, de todo jeito, tirá-la da imobilidade do espelho: “Que tal pedalarmos juntas no parque amanhã?” Mas o amanhã era só um ponto no horizonte. 

Um dia, entrei esbaforida dentro de casa, fui correndo até Iracy, minha excitação era tamanha que quase quebrei o espelho. “Imagina o que abriram aqui na esquina? Uma academia de ginástica!”

Iracy se fazia de morta. “Ah, me deixe. Estou bem assim. Você sabe que eu detesto academia!”  “Mas essa é diferente, querida”, argumentei. “É aqui do lado. Só tem mulheres. E o programa dura apenas trinta minutos.”

Na manhã seguinte, deixei Iracy na sua sonolência de costume e fui me matricular. Parecia um sonho… Eu voltava a me movimentar... Numa academia sem homem olhando para minha bunda, ou pior ainda, para minha barriga. Ninguém merece tanto desprezo.

Mas o mais legal era que eu poderia enrijecer meus músculos e perder peso – em apenas trinta minutos!

Trinta minutos, meia horinha! Talvez você, acostumada à liberdade de correr horas a fio no bosque, ria. Mas meia hora na vida de uma mãe é como o último quilômetro de uma maratona; pode decidir se você perde ou ganha. Ainda tremo com o esporro da professora, por termos chegado na festinha da escola meia hora atrasados. Ou com meu constrangimento ao interromper uma reunião de trabalho, porque meu filho fez cocô na hora de sair de casa. E depois do curto-circuito que escureceu o apartamento, obrigando meu pimpolho a pedir socorro ao vizinho, percebi que deixá-lo sozinho por mais de meia hora era demais para mim.  

Então, com o coração aos pulos, arrisco a deixá-lo mais uma vez só com a letárgica Iracy (“É apenas meia horinha!”) e vou malhar. Malho, malho, malho, malho três vezes por semana, à espera de que o espelho dê uma trégua.

Meses mais tarde, ao chegar em casa, descubro que Iracy já não está. Voltou para o Brasil, deve ter entrado no espelho da minha mãe. Ou da minha irmã. Dou um sorrisinho triunfante: “Eu sabia que ia me livrar da peça.” Apesar do alívio, sinto saudade. Percebo que havia me acostumado a ela.

O espelho, agora vazio, reflete minha nova imagem. A barriga encolheu. Estou um pouco mais magra. Mais abatida também? Talvez. Estou tão entusiasmada com minha pequena conquista, que mal registro o recado que Iracy pregou no vidro: “Não se deixe levar pelas aparências, amiga. Como dizia o Pequeno Príncipe, o essencial é invisível aos olhos”. 

Típico de Iracy!  Apelando agora para Exupéry. Mas não vou reatar a velha cumplicidade. Me recuso a cair na armadilha. Bela de uma esparrela! Pego o papel, corto-o em pedacinhos e jogo tudo pela janela. 


Adriana Nunes estudou Jornalismo em Brasília e Literatura na Alemanha. Autora do livro "Nur die Edelsteine kommen aus Brasilien". Atualmente trabalha em uma organização de cooperação internacional. Há 2 anos ela se formou como professora de yoga e desde então muita coisa mudou na sua vida, sobretudo a relação com seu filho.

 
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