A ciência por trás do chilique

A ciência por trás do chilique

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A cena parece ter saído de um filme de terror materno: por alguma razão inexplicável ou banal, seu filho de dois anos que há 5 minutos era a criança mais fofa do mundo, se transforma numa pessoinha raivosa e inconsolável. Ele se atira no chão e atira coisas em você. Ele chora compulsivamente, como se estivesse diante de uma tragédia enorme.  Como se o mundo fosse acabar. Como se ele fosse acabar. 

A última vez que minha filha sofreu a metamorfose "de fofa para louca" foi agora há pouco. O que desencadeou o ataque histérico foi simplesmente eu ter negado o segundo saquinho de balas que ela ganhou numa festa. Quando ela percebeu que a ingestão compulsiva de balas lhe estava sendo negada, ela se jogou no chão e começou a se estapear -  ?! Pausa aqui para minha absoluta cara de perplexidade. 

Crianças entre 1,5 e 3 anos de idade têm rompantes de raiva e frustração profunda com freqüência.  A boa notícia é que eles não fazem isso porque são mal educados ou porque tem uma falha na personalidade. Os chiliques são normais e existem explicações científicas para eles.

A revista Slate entrevistou 5 especialistas em psicologia infantil para buscar explicações para os famosos chiliques.  Depois de ler o que eles disseram você começará a achar o comportamento da sua ferinha absolutamente razoável. 

Confira:

  • Crianças com entre 1 e 3 anos de idade acabaram de aprender a andar e desenvolvem a cada dia novas habilidades psíquicas e motoras. Eles estão loucos para explorar o mundo fazendo uso do know-how recém adquirido. Ao mesmo tempo, os pequenos exploradores estão morrendo de medo do que podem encontrar por aí e estão sempre apavorados com a possibilidade de que seus pais os deixem sozinhos nesta aventura. E são justamente essas pessoas tão amadas, que deveriam lhes ajudar, que estão o tempo todo lhes negando o prazer da descoberta. Não entre aqui. Não mexa aqui. Não toque na faca.  Não enfie a mão dentro da privada. Não despeje o saleiro no tapete. "Eles não entendem suas razões. Eles só sabem que alguma coisa com a qual eles estavam se divertindo muito lhes foi repentinamente tomada, pelas pessoas que eles mais amam" explica Alice Lieberman, autora do livro "The Emotional Life of the Toddler". As crianças se sentem traídas. A dor delas é comparável ao que nós sentiríamos se fossemos traídos por nossos maridos ou esposas.
  • A incapacidade de se expressar perfeitamente também motiva os ataques de raiva. Enquanto nós adultos conseguimos identificar e categorizar nossas emoções devido a nossa capacidade de se comunicar perfeitamente, crianças entre 1,5 e 3 anos ainda estão desenvolvendo a fala. Pesquisas científicas argumentam que a comunicação oral influencia muito a capacidade do ser humano de processar emoções negativas. Além disso, nós somos capazes de eventualmente negociar com pessoas que estejam agindo contra nossa vontade, enquanto crianças que não se comunicam perfeitamente não possuem esta alternativa. Sob esse ponto de vista pode parecer comprensível, que ao ser interrompido bruscamente de algo que lhe estava proporcionando prazer, a criança que não tem ainda a capacidade de argumentar à seu favor tenha um ataque de raiva e tente se defender com violência. Quem aqui ainda não foi alvo de algum objeto voador? 
  • Outro fato científico sobre crianças nesta idade: o lobo frontal ainda não está totalmente desenvolvido. Dessa forma, funções atribuídas a esta parte do cérebro como planejamento, raciocínio lógico, memória operacional e auto-controle, ainda não estão totalmente operantes no seu monstrinho. Com o lobo frontal funcionando parcialmente, crianças desta idade vivem absolutamente no aqui e agora. Não existe uma vozinha na cabeça deles dizendo "humm.. talvez seja melhor eu não jogar meu ursinho favorito na privada já que na semana passada ele ficou todo molhado". Alice Lieberman explica que é também por essa razão que as crianças têm dificuldade em ser pacientes e confundem querer com precisar. 
  • A psicologa Claire Koop, co-autora do livro Socioemotional Development in the Toddler Years, aponta a importância das experiências acumuladas durante a vida na hora em que temos que enfrentar desafios: "Crianças tão novinhas simplesmente não possuem uma bagagem vasta de experiências para empregar nos momentos de dificuldade."
  • Harvey Karp, pediatra e autor dos livros The Happiest Baby on the Block e The Happiest Toddler on the Block compara crianças entre 1,5 e 3 anos à pequenos homens da caverna. Sem nenhuma intenção de ofender nossos filhos, ele acredita que a comparação ajuda os pais a entenderem os filhos. "São necessários anos para socializar crianças. Os pais devem dar uma colher de chá para os filhos". Karp usa a analogia do homem das cavernas para apontar outro problema envolvendo os pequenos: eles são muito pouco estimulados. "Imagina como viviam os verdadeiros pequenos homens da caverna no passado? Um ambiente cheio de sensações: cheiros, ar puro, sombras, pássaros, grama sob os pés... Nós deixamos nossos filhos a maior parte do tempo entre 4 paredes e acreditamos que isso é normal." E completa:  "É difícil passar um dia inteiro com uma criança de dois anos, mas eles também não querem passar o dia inteiro com você."

E agora que está tudo explicado,  a pergunta de um milhão de dólares: o que fazer na hora dos ataques? Bom, isso é assunto para outra coluna, mas posso dividir aqui rapidamente a orientação que recebi do meu pediatra, e que vem funcionando. Conforme os especialistas acima explicaram, quando seu filho está tendo um ataque daqueles, ele está passando por um turbilhão de emoções com as quais ele não sabe lidar. Não se afaste dele. Ofereça conforto na medida do possível. Mas não ceda às suas vontades só porque ele esta chorando. Do contrário, ele vai aprender que pode conseguir muita coisa chorando e esperneando. E aí a coisa fica mesmo preta.

 

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