O valor das coisas

O valor das coisas

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Era aniversário de 2 anos do meu filho. Em vez de comprar um presente, resolvemos ser os primeiros a chegar numa super loja de brinquedos e deixar ele olhar tudo, experimentar e decidir por uma coisa que gostasse. No caminho para a loja, a mais velha usava todo seu poder de argumentação para nos convencer que ela também tinha direito de escolher algo, ainda que não fosse seu aniversário. Eu contra argumentava sem muita convicção: "Vamos ver, Maria... é aniversário do seu irmão, você já ganhou o seu, lembra?" Mas a carinha de indignação com uma pitada de tristeza sinalizava que o debate estava só começando.

Na loja de brinquedos, a negociação ia ficando cada vez mais ardilosa. Eu sabia que ia perder. Então que pelo menos fosse por um brinquedo que valesse a pena. Maria começou apostando alto: casa de bonecas, fantasia completa de vampirinha, neném que fala, anda e caga... Até que ela veio com uma Barbie Face. Desde que passou as férias no Rio de Janeiro, ela queria a Barbie Face igual a da prima. Pelo menos era um desejo de longa data. E a Barbie Face estava em promoção. O que são 20 euros perto de um rostinho feliz?  "Além do mais ela vai brincar para caramba com a Barbie Face" -  finalizei argumentando ao meu marido - e à mim mesma - na fila do caixa.

Ledo engano. Minha filha brincou uma única vez com a Barbie Face. Faz dois meses que a boneca acumula pó junto a uma montanha de brinquedos esquecidos. Hoje, quando olhei para aquela cabeça loira, não pude deixar de pensar numa frase que escutei de uma amiga há algumas semanas: "Presente aqui em casa, só em datas especiais."

Na ocasião, o assunto era outro e minha amiga está longe de ser dessas mães que ficam cagando regras, então nem falamos muito sobre isso. Mas a Barbie tinha sido a gota d'água. Alguma coisa precisava mudar.  Afinal, em um mundo em que cada vez mais pessoas se dão conta que consomem coisas que não precisam, tem alguma coisa muito errada na montanha de brinquedos do quarto da Maria. Mandei um email para a minha amiga. "Como assim brinquedos só em datas especiais? 

"Pô, Camis, falando assim parece até meio general, né?" Eu podia ver o sorriso dela respondendo meu email.  Não, não parece general, parece bem legal. Ela contou que ela e o marido foram criados assim, então era natural.  A regra vale desde que as meninas nasceram, e como sempre foi assim, elas não ficam questionando. É assim e ponto. "É para aprender a dar valor as coisas" - resume com simplicidade. "Quando pequena, eu sabia que para ter alguma coisa, tinha que querer muito e esperar. Mas quando eu finalmente ganhava, era a maior alegria.  Enquanto isso eu brincava com a Barbie e com a Moranguinho, que apesar de baixinha, era a irmã da Barbie, e nem por isso eu fiquei complexada." 

Ela admite que às vezes fica com o coração partido. Como, por exemplo, quando deixou a filha escolher uma caneta brilhante porque tinha sido corajosa durante uma vacina de gripe. Com os olhinhos fixados na vitrine, a filha olhava as canetas e não sabia qual cor escolher. Pensava muito para não errar. Minha amiga quase teve um ímpeto e mandou a filha levar todas as canetas, uma de cada cor, dane-se, só para ver ela feliz.  Mas se aguentou. A filha dá o maior valor para a caneta, guarda até no seu cofrinho.

E depois de ler o email dela, fico me perguntando se foi esse tipo de educação que fez a Graziela virar uma mulher batalhadora, que não se abate com facilidade. Mas agora vem a cereja do bolo da lição anti-consumista, pró vida sustentável da minha amiga: Quando as meninas ganham um brinquedo novo, elas têm que escolher um brinquedo velho com o qual elas não brincam mais para doar para uma criança pobre. A pequena ainda não entende, mas ela me conta que a mais velha se sente super importante com seu ato de generosidade.

Talvez você seja como a minha amiga e eu não esteja falando novidade alguma, mas eu sou a maior gastona.  E a maior manteiga. Então me abre cabeça quando escuto de uma amiga que poderia dar tudo para os filhos, que não, que ela não vai liberar geral, que as meninas terão que aprender a dar valor às coisas. 

E sinceramente, a Maria é mais feliz desde que ganhou a Barbie Face? Não. Sabe o que a Maria quer de verdade? Ela quer que a gente converse, que eu leia para ela, que a gente vá ao parque, que a gente asse um bolo juntas, que a gente desenhe, que eu faça a vozinha da Moranguinho enquanto ela encena a Barbie. 

Eu sei que esse meu jeito mão aberta e manteiga derretida não está contando pontos para o futuro dos meus filhos.  Mas é difícil para mim ser diferente.  Eu sou assim porque meu pai é assim. Ele não tinha grana durante a infância, e quando virou pai, deu para os filhos tudo que ele não pôde ter - e tudo que compensasse a saudade que a gente sentia enquanto ele passava muito tempo trabalhando fora de casa. Eu tive quase tudo que desejei, e me vejo - por razões diferentes - repetindo o mesmo modelo mão aberta do meu pai. A gente é muito do que viveu em casa.    

Mas tem uma coisa muito mais bacana que aprendi convivendo com o meu pai:  nós sempre podemos evoluir.

Maria, se prepare: Barbie Face no more!

 

 

 

Esse post é dedicado à Gra. Uma amiga querida, que mora na Austrália com o marido e as duas filhas. Nossa troca regular de emails sinceros foi a grande inspiração para começar este blog.  

 

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