Mãe, o que é depressão?

Mãe, o que é depressão?

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O telefone tocou tarde da noite. Era Frank, o treinador de futebol do meu filho: “Excelente notícia! A Alemanha jogará um amistoso contra o Chile. As crianças do nosso clube entrarão em campo com os jogadores. Como não há espaço para todos, fizemos um sorteio. E sabe quem saiu no meio? Seu filho!“

Eu não entendia bem o que se passava, mas pelo tom solene de Frank, devia ser algo extraordinário. O treinador, normalmente lacônico, prosseguia com entusiasmo, sem perceber meu desnorteio: “Vamos torcer para Jan entrar de mãos dadas com Ballack.”

Fui preparar um chá, tentando organizar as ideias. Enquanto bebericava, via as palavras de Frank correndo, driblando meu raciocínio. Faziam marcação cerrada, tentando avançar com a mensagem, mas minha cabeça era um goleiro feroz: não deixava nada entrar. Eu já estava desistindo de entender, quando um nome próprio se precipitou para o gol: “BALLACK”. Sim, sem dúvida nenhuma, uma palavra-artilheira: Ballack! Um dos jogadores alemães mais talentosos, o herói do meu filho!!! Agora, tudo fazia sentido: Jan entraria com a seleção alemã em campo. Com um pouco de sorte, de mãos dadas com seu ídolo.

Ao me dar conta do que aquilo significaria para Jan, cuja maior paixão era o futebol, entrei em transe. Rodopiei pela casa como um redemoinho, dancei e gritei para o quintal do vizinho. E, antes mesmo de meu filho saber, o mundo inteiro havia sido informado.

E a reação do Jan? Feliz, claro, mas ao contrário de mim, absolutamente equilibrado: “O único problema, mãe, é que sou fã também do chileno Arturo Vidal e estou com pena dele. Agora que entrarei com os alemães, é óbvio que o Chile vai perder. Eu dou sorte”.

Empalideci, diante de tanta auto-confiança. Não Ballack, mas sim Jan Nunes decidiria o jogo.

As próximas semanas foram pura alegria. Eu já me via no estádio, assistindo, eufórica, à partida.

Não se esqueçam, porém, queridos leitores, que estamos na Alemanha. Em novembro. O início de um inverno impiedoso, que leva as pessoas ao desespero.

Então, às vésperas do jogo, os jornais noticiaram: “O goleiro da seleção alemã, Robert Enke, se atirou na frente de um trem. O amistoso contra o Chile será cancelado.”

“Goleiro”, “seleção”, “cancelado”. As palavras se confundiam num zigue-zague sem nexo. De repente esvaeceram-se, e, no lugar delas, apareceu a imagem de um trem alucinado numa tarde sombria. Em alta velocidade ele veio, atropelando nossa alegria. Vi os sonhos do meu filho despedaçados pelos trilhos, entrelaçados aos membros estilhaçados do goleiro. Uma parte de Jan, talvez a mais inocente, morria junto com Robert Enke.

Vi depois Teresa, a mulher do jogador, chorando: “Achávamos que, com o nosso amor, curaríamos a depressão dele.”

Respirei fundo, me preparando para dar a notícia a Jan. Mas como explicar a uma criança, que só conhecera a felicidade até então, o que significa uma depressão? Fui até sua escola, perdida. Mas meu filho não estava no pátio, jogando. Encontrei-o numa sala de aula, observando um grupo de meninas pintar. Ao me ver, não sorriu como de costume. Limitou-se a acenar. Tentei balbuciar algo, mas Jan me interrompeu: “Já sei, mamãe. Robert Enke se matou. Não vai ter mais jogo”.

Contive as lágrimas. Abracei-o com carinho, coloquei sua mochila nas costas, e saímos.

Após caminharmos um pouco, precisei quebrar o silêncio: “Robert Enke sofria de depressão, querido”. Ele me olhou, perplexo: “O que é depressão, mamãe?” Travei um corpo a corpo selvagem com as palavras arredias, tentando agarrar uma: “BURACO. A depressão é um buraco negro na alma.”

Parece que Jan entendeu, porque, pela primeira vez, desde que soube da notícia, chorou: “Merda de goleiro!”, articulou, tentando ser forte. “Logo agora, na véspera do jogo…”

Não soube consolá-lo. Propus apenas seguir caminho. No final da rua, na esquina de nossa casa, tem uma capelinha. Eu costumava entrar ali, quando me sentia esmagada pela angústia de criar um filho sozinha.  Quis oferecer um pouco daquela paz para Jan.

“Querido, tive uma ideia! Vamos acender uma velinha! De lá do céu, Robert vai ver e se animar”.

“Será que ele levou o buraco negro lá pra cima, mamãe? Será que ele sai de lá?”

“Não sei, filho, não sei. Mas pode ter certeza: a luz dissipa a escuridão. Vamos tentar.”

Dei uma moedinha para o Jan comprar a vela, que ele depositou, com os olhos cheios de esperança, no altar. E ficamos lá, abraçadinhos, vendo a cera derreter e a chama brilhar.



Adriana Nunes estudou Jornalismo em Brasília e Literatura na Alemanha. Autora do livro "Nur die Edelsteine kommen aus Brasilien". Ela é mãe de Jan, um menino de 11 anos muito bom de bola.

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