Você acha que eu devo engravidar?

Você acha que eu devo engravidar?

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Querida Ana, 

Nos últimos tempos toda vez que a gente se encontra você vem com esse papo. É o grande dilema da sua vida, afinal, ano que vem você faz 38 anos e ainda não conseguiu decidir. Olha, eu entendo totalmente, é mesmo uma opção difícil. Você e o Mark amam sair à noite e viajar, você é uma executiva em ascensão. Vocês têm vários amigos sem filhos. Seria uma grande mudança.

Eu nunca quis te convencer a ter filhos. Não preciso que você siga o meu caminho para legitimar a minha escolha. Esta carta não é para isso. Aqui na Europa, não querer ser mãe não é mais um tabu. É uma opção pessoal. Acho bem injusta essa pressão toda e todos os clichês repetidos por quem já é mãe para quem não é.

Eu sempre tento ser realista quando você me pede para explicar o que é ser mãe.  Ainda não sei como é ter filhos mais velhos, mas posso te dizer como é minha vida agora com crianças pequenas. Nós que cuidamos deles: sem babá, sem empregada, sem vovó, titia, sem muita ajuda. Eles vão para a escolinha, a gente vai trabalhar. Assim como todo mundo por aqui. E assim seria para você também. 

Eu sou eu, no tempo mínimo que me sobra entre trabalhar e ser a mãe deles. Tenho uma lista imensa de coisas que gostaria de fazer e que muito provavelmente não vou conseguir. Eu me revezo entre ficar com meus filhos e querer fazer minhas coisas e fazer minhas coisas e querer estar com meus filhos. Não é fácil, como você já deve ter percebido pela minha ausência e cara de cansaço constante.  

Mas hoje é seu aniversário, e você me pediu uma razão para ter filhos. Então vamos lá, posso te dar mil razões. Elas são muito subjetivas, mas são reais. 

Hoje, por exemplo, quando eu cheguei em casa depois da sua festa, as crianças vieram correndo me abraçar. O sorriso no rosto deles é a coisa mais linda que eu já vi na vida. Nem as cinco semanas que eu passei naquela praia deserta paradisíaca na Tailândia, tiveram um impacto maior em mim do que uma risada de 5 segundos dessas crianças. 

Outra razão? O pé do Gael. Todas as noites quando eu coloco ele no berço, faço carinho no pézinho gordo dele. Se eu não tivesse tido filhos, nunca teria um pézinho gordo desses pra mim, nem receberia carinho de uma mãozinha igualmente gorda, sabe?  Ele deita a cabeça no meu ombro e me abraça como se não houvesse nada melhor no mundo e me sinto a pessoa mais especial que existe.

Maria hoje acordou mais cedo que todo mundo, e pela primeira vez, sem perguntar a ninguém, colocou a mesa do café da manhã. Quando eu levantei da cama sonâmbula de sono, meu coração se encheu de alegria ao ver aquela mesa posta, com os pratos e talheres trocados, sem toalha nem guardanapo, mas com uma menina orgulhosa, esperando ansiosa ao lado dela pela minha aprovação. 

Ontem a gente fez guerra de travesseiros com a família inteira. O Gael e a Maria quase não se agüentavam de tanto rir. Era como se o mundo, o tempo e tudo lá fora tivesse parado, e em algum momento me dei conta que estava com a barriga doendo de tanto rir. 

A Maria aprendeu a andar de bicicleta na semana passada. Eu já estava quase desistindo, achando que não ia dar certo, mas de repente percebi que ela conseguiu se equilibrar, e deixei ela ir sozinha. Lembrei exatamente do dia em que meu pai correu atrás de mim segurando a bicicleta, e me soltou dizendo: "vai, filha!" Ver a Maria andando de bicicleta sozinha, me encheu de um orgulho tão avassalador, que eu gritava para os desconhecidos que passavam na rua: "Ela conseguiu! Ela conseguiu!" Pensar que meu pai sentiu a mesma coisa quando me viu andar de bicicleta a primeira vez, me emociona tanto, que tenho vontade de ligar para ele agora só pra dizer obrigada.

E por aí vai, Ana. São coisas simples o que tenho pra contar. Com certeza em alguns anos, com eles mais velhos, serão outras coisas, mas é tudo assim nesta linha. Não existe uma razão absoluta para ser mãe. São essas pequenas razões, que enchem a nossa vida de alegria, que fazem nosso peito querer explodir de tanto amor. E é legal sentir amor. Muito amor. Amor capaz de mover montanhas.

Independentemente do cansaço que sinto e de todas as coisas que eu tive que abrir mão na vida por eles, tudo que consigo sentir quando penso nos meus filhos é gratidão. Sou muito grata a Deus por ter me permitido ser mãe.  Sei que algumas mulheres quiseram e não foram. Sei que outras não quiseram. Mas eu quis, eu sou, e só por isso já valeu a pena ter vivido.

Eu não queria ter passado pela vida sem sentir isso. E sei que não importa o que aconteça, uma coisa é certa: amor de filho é a melhor coisa que existe. Pra quem é mãe, claro. Pra quem não é, deve ser mesmo aquela praia deserta na Tailândia, o que convenhamos: também não é nada mal.

 

Camila Furtado é mãe de dois filhos. Hoje em dia ela consegue entender perfeitamente porque algumas mulheres não querem ser mães. Mas ela sempre quis.  E se nao tivesse sido provavelmente estaria entediada e trabalhando como uma louca para conseguir tirar férias em algum lugar paradisíaco.

 

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