Gata Borralheira Zen

Gata Borralheira Zen

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Alemanha.  Sábado de tarde. Tenho 21 anos e uma pilha de roupa para passar. Na verdade, eu vim aqui para estudar, o que esse cesto de roupa faz  na minha frente? Entre mim e os meus livros, o cesto me provoca: “Você não queria um Conto de Fadas na Europa?”

Acordei cedo, comi cereais com leite. Entre o café da manhã e esta tarde enfadonha, só belisquei. Almoço frugal… cereais com leite. Preguiça de cozinhar?  Ou puro deleite?

Deleite por estar distante dos olhares vigilantes. “Você tem que se alimentar direito!”, insistia minha mãe. Deleite impregnado de saudade. Repreensão. Por que ela  não me ensinou os segredos do fogão?

Minha mãe detesta cozinhar. Tja... Igualzinha a mim.

No Brasil, éramos salvas por Carmélia. Ou por Dalva. Ou Carmosina, a empregada do momento. Na Alemanha, o momento é da empregada.

Quem é rico – como o filho do ex-chanceler – paga.

Quem não tem… Bem… Quem não tem… Desce do salto.

E aqui estou… numa tarde de sábado… passando, gomando, varrendo, sacodindo a poeira e me maldizendo…

Que Diabo vim fazer aqui?

Isto aqui é o Primeiro Mundo?

Por que não fiquei lá,

No meu país vagabundo,

Com minhas mucamas baianas, 

Minhas amas de leite?

Aqui como cereais o dia inteiro…

Puro deleite!!! 

Ninguém me obriga a nada. Minha mãe distante, nem avó, nem tia por perto para comentar… Eu bem que podia estar nos parques, neste dia ensolarado, fazendo piquenique ou churrasco… Mas  o cesto de roupa ali no canto…

Percebo que estou a um passo de cair no pranto…

Eu poderia sair por aí, de roupa machucada, combinando com minha cara limpa e amassada, mas, ah! o orgulho… menina de família, boa família, menina burguesa, menina mimada. Lembro-me da tarde em que deixei o Brasil: o reboliço do aeroporto, a minha excitação, o olhar de admiração nos olhos dos meus parentes. “Olha como ela é corajosa!” “Menina atrevida, menina bela!”

Eu me sentia a própria Cinderela…

Cheguei aqui, não demorou nem um mês, nem uma semana talvez, aterrissei de barriga… neste cotidiano enfadonho que as alemãs tiram de letra! Ou porque são perfeitas… ou porquem... vivem amassadas. Who cares?

Mas eu, bem… a vaidade… É bem verdade que ninguém te olha muito na rua… mas a vaidade… Nunca sonhei em acabar como Gata Borralheira.

Desce do salto, donzela!

O tempo voando, voando, eu perdia a conta dos quilos de pó que arrancava do chão, dos pacotes de cereal engolidos, das lágrimas derramadas pelos cantos…

Eu, a inconformada,  prisioneira do rojão…

Enquanto que no Brasil, bem…

Sábado é dia de salão!!

Sábados, sábados, anos? Entre a saudade, a revolta e o desconforto… Este lugar nunca sendo meu lar.

Até que um dia… não, não foi o Príncipe Encantado, este já tinha chegado e passado, me deixando apenas com um filho… Um dia decidi me formar em yoga, mas o local de retiro espiritual, o ashram, não era na Índia. Era aqui mesmo, na Alemanha, e os alunos de toda a Europa se reuniam lá nos fins de semana… Entre as muitas posturas e meditações, dividíamos os afazeres domésticos. Afinal yogi também come. 

Estávamos eu e uma holandesa, a Anne Sophie, na cozinha do ashram descascando cebola para o almoço, quando irrompeu aquela discussão… Não me lembro mais quem começou. Só sei que em breve estávamos nos engalfinhando, trocando acusações. Anne Sophie repreendia minha lentidão, eu a chamava de egocêntrica. No fundo, no fundo, estávamos ambas revoltadas por estarmos ali cozinhando em vez de reunidas aos demais alunos meditando… Tão entretidas estávamos naquele arranca-rabo que nem percebemos quando nosso Mestre entrou. Vestido de branco, sempre discreto e silencioso, ele tinha o costume de se fazer invisível… Quando finalmente nos demos conta de sua presença, ficamos perturbadas, cabisbaixas... cheias de vergonha… Como podíamos brigar por algo tão mesquinho, naquele ambiente sagrado??? Calamo-nos e voltamos ao trabalho.

Depois da refeição, o Mestre nos convidou para uma meditação em grupo, que ele concluiu com uma singela oração: “Senhor, fazei com que possamos meditar e trabalhar, não apenas um ao lado do outro, mas um pelo outro.”

Terminado o ritual, uma profunda paz reinava na sala. Sem saber como, Anne Sophie e eu havíamos caído nos braços uma da outra, chorando… 

Quando o fim de semana acabou e retornamos à casa, juntei toda minha coragem e escrevi ao Mestre: “Obrigada pela transformação instantânea da nossa negatividade…” A resposta foi tão singela quanto sua oração: “Seva é o trabalho voluntário que fazemos de coração, por nós mesmos e pelos outros, sem esperarmos nada em troca… Pratique seva... Grow and glow, Adriana”.

“Grow and glow”. Então era isso. Eu que achava que as tarefas domésticas me cobriam de pó e vergonha… Eu que me refugiava nos livros sempre que podia, me esquivando do trabalho pesado. Eu que considerava o serviço braçal indigno e inferior ao intelectual… Eu descobria que na yoga não se separa nada. Quando você está limpando a casa, na verdade está purificando seu coração.  Trocar as fraldas do seu filho é um ato de devoção. Ao jogar uma plantinha morta fora, você se desfaz de um sentimento passado. E ao tirar a poeira do cantinho do armário, descobre, de repente, aquele objeto esquecido que estava pesando no seu inconsciente.

Eu andava sonhando – e ainda sonho – com os sapatinhos da Cinderela. Mas só mesmo quando desci do salto, foi que ampliei o formato e brilhei -  o brilho refletido dos olhos do meu filho comendo o primeiro bolo que eu mesma assei…


Adriana Nunes estudou Jornalismo em Brasília e Literatura na Alemanha. Autora do livro "Nur die Edelsteine kommen aus Brasilien". Atualmente trabalha em uma organização de cooperação internacional. Há 2 anos ela se formou como professora de yoga e desde então muita coisa mudou na sua vida, sobretudo a relação com seu filho.

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