Você casou com o amor da sua vida?

Você casou com o amor da sua vida?

Eu não. Eu casei com um homem muito legal, com quem eu na época achava que poderia formar uma família. Ele é um excelente pai para os meninos e um grande companheiro para mim. Mas eu nunca fui louca por ele, eu sempre soube que ele não era O cara.

Eu passei a minha vida inteira imaginando o amor da minha vida. Houve fases em que imaginei ele meio sujo, com camisetas de rock e um cigarro sempre na boca. Depois quis um fã do Caetano, que tocasse violão e gostasse de ver o pôr do sol na praia. De um jeito ou de outro, sempre torci para encontrar uma paixão arrebatadora e recíproca, que culminasse em uma família linda e um frio na barriga eterno.

Mas o fato é que o tempo passa e você percebe que nem sempre a vida é um conto de fadas. Com 30, depois de uma fase sofrendo pelos mais variados tipos (teve o mais gato da cidade que fez de mim a mulher mais corna do país, o publicitário fodidão que sumia toda vez que eu citava a palavra compromisso, e outros tantos igualmente desanimadores), mudei minhas prioridades. 

De repente comecei a sentir preguiça de todas aquelas festas estranhas, com gente esquisita. Preguiça de fazer de tudo pra ser gostosona, de ler todos os livros e ver todos os filmes e freqüentar todos os lugares pra parecer cool. Eu comecei a querer ser eu mesma e torci pra achar alguém com quem não tivesse que sair da cama mais cedo pra escovar os dentes, só pra fingir que não tenho bafo de manhã. 

Com trinta e poucos, não me importava mais se o cara era muito bom de cama, se era muito gato, ou se se encaixava como uma luva no meu estereótipo de homem perfeito. O que interessava era: tem futuro? É porto seguro? Vai ficar comigo ou vai abandonar o barco, quando o tempo fechar? E neste contexto, eu tive a sorte de conhecer meu marido.

Ele não gostava do Caetano, era um pouquinho mais baixo que eu e tinha um senso de humor - digamos - pouco sofisticado. Não entendia ironias, não bebia cerveja e não suportava filme europeu. Em compensação, era gente boa, bem sucedido, inteligente, tinha boa família e o principal: gostava de mim. Talvez não fosse louco por mim, mas assim como eu, buscava um porto seguro. 

Antes do "sim, eu aceito", me questionei muitas vezes se deveria mesmo tentar encaixar o redondo no quadrado. Mas meu relógio biológico estava correndo e eu já estava cansada de saber como é difícil achar um cara que quer bancar uma relação pra vida, que topa construir família e todo o pacote que vem com essa decisão. Mas será que a longo prazo uma relação sem tanta afinidade iria se sustentar? 

Resolvi arriscar e tomei minha decisão. Me decidi por ele e pela família que podíamos construir juntos. E, de alguma forma, essa decisão acalentou meu coração, me fez sorrir tranqüila. Quando nossos filhos nasceram, eu senti um amor enorme pelo meu marido... Me senti muito feliz de fazer parte daquela nossa família recém-formada. Mas o tempo vai passando, e essa magia pouco a pouco vai se dissipando.

Estamos juntos há 11 anos. As coisas estão cada dia mais mornas entre nós. Tem dias que eu penso, claro que sim, afinal são 11 anos. Temos três filhos, trabalhamos muito e a minha vida não tem metade do glamour que ela tinha há 10 anos. É uma vida de família normal, sabe? Cotidiano, alegrias, preocupações, noites mal dormidas, futebol dos meninos, Natal na casa da sogra, calça de moletom furada e assim por diante. Com o tempo, qualquer relação dá uma esfriada, todo mundo sabe disso.  Mas eu não consigo deixar de pensar que quando uma relacão já começa meio morna, com o dia-a-dia da vida familiar ela congela. E ao passo que nossa vida a dois vai perdendo a importância para mim e - provavelmente para ele também - me vejo caminhando em direção ao pólo norte.

Outro dia uma amiga me disse que tem que usar de muita criatividade para reacender as coisas entre ela e o marido e que no fundo está sempre tão cansada, que troca sem pensar cinco noites de "sexo criativo" por uma boa noite de sono. Ela me contou que o que ajuda é lembrar da época em que rolava o maior fogo entre eles, que isso faz o amor deles se reinventar. Bem, essa alternativa eu não tenho. O único fogo que eu consigo me lembrar é do dia que o nosso mais velho de fato quase colocou fogo na nossa casa, mas isso tampouco vem ao caso agora.

Agora resta a pergunta: será que seria diferente se o meu casamento tivesse sido produto de uma paixão arrebatadora? Porque houve, sim, várias paixões arrebatadoras, mas nunca envolvendo pais em potencial. O que eu deveria ter feito? Confiado mais no destino? Esperado pelo Mr. Totally Right? E se ele não chegasse nunca?

Nunca vou saber como teria sido. Eu sei é que a gente toma as nossas decisões na vida, certa ou erradas, e tem que bancar as conseqüências. Principalmente quando essas decisões envolvem nossos filhos. Eu tento bancar minha escolha e nunca nem pensei em me separar, mas não posso negar que sinto falta de estar apaixonada. E isso tudo me dá medo. Me dá medo de pensar que um dia vou olhar para o meu marido deitado na mesma cama que eu e me dar conta de que casei com meu irmão.

Olho essas mulheres que rodam o mundo vivendo uma paixão a cada esquina e sinto um pouco de inveja, do mesmo jeito que elas talvez sintam de mim e da minha família. 

Só o que sei é que não se pode ter tudo.

 

Esse texto foi enviado por uma leitora e editado por Fabiana Santos. Agradecemos nossa leitora pela sinceridade e por confiar sua história ao nosso blog. Para mandar sua história escreva para: tudosobreminhamaeblog@gmail.com

 

 

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