O primeiro bullying

O primeiro bullying

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Acompanhei a cena desde o começo porque estava lendo o painel de avisos no corredor do jardim de infância. Minha filha, na época com 4 anos, estava sentada em um banco, tirando o lanche da mochila e se preparando para começar mais um dia na escolinha. Eis que passa Aline, uma criança de personalidade forte, amiga ou rival dependendo do dia da semana. “Maria, você está de meia-calça? Todas as meninas estão sem meia-calça, menos você”, disparou a linguinha afiada.

Continuei ali, fingindo que lia o painel de avisos, mas com as antenas ligadas. Lembrei-me dela de manhã insistindo para ir sem meia-calça e eu negando: “Não, Maria, não está tão quente assim. Isso aqui não é o Rio de Janeiro.” Tendo vivido quase a vida inteira no Brasil, tenho dificuldade de encarar 20 graus como verão e sempre visto na Maria muito mais roupa do que costumam usar as crianças alemãs. 

Antes que minha filha pudesse se recuperar da constatação de que ela era de novo o único ET da sala, Aline soltou mais uma: “Você viu meu relógio, Maria?”, e esticou o braço em direção a ela. “Uau”, respondeu uma Maria cabisbaixa, com meia-calça e sem relógio. “Você não sabe ver horas”, completou Aline. Meu coração doeu ao lembrar que na semana passada minha filha estava tentando fazer um relógio de papel para si mesma.

Depois de se sentir um pouco mais segura à custa da insegurança da minha filha, Aline seguiu seu caminho para a sala. Fui até a Maria. Dei um abraço. Perguntei se ela queria tirar a meia-calça e lembrei que ela não tem relógio, mas tem pulseira, e que ela é linda de qualquer jeito. “Tá bom, mamãe”, respondeu, pouco convencida.

Andando de volta para o carro, me assustei um pouco de pensar que devagarzinho a Maria está entrando naquela fase em que a opinião dos amigos é mais importante que a dos pais. É tão importante ser como nossos amigos quando somos crianças... Penso em mim mesma. Filha de uma artista plástica hiponga, tudo o que eu mais queria era que nas reuniões da escola minha mãe usasse uma calça jeans em vez daquelas saias rodadas. O que eu obviamente não conseguia entender naquela época é que ter aquela mãe atípica, criativa e livre foi um dos maiores presentes que ganhei da vida para a formação da minha personalidade.

Naquela época eu só sabia que a sensação de não me sentir cool era horrível. E olha que não fui das mais zoadas na escola. Mas tive, sim, meus problemas. Quando me mudei do Rio para São Paulo, por exemplo, fui parar, com meu sotaque carioca, minhas roupas desleixadas e minha informalidade praiana, em um colégio particular, daqueles bem esnobes, que quase acabou com a minha raça. Passei um ano inteiro sem amigos, e na hora do recreio, para ninguém perceber meu isolamento, comia meu lanche trancada no banheiro. Só saía quando o sinal batia outra vez. A turminha pop da escola não tinha o menor interesse na carioquinha gordinha com mãe hippie. 

Mas veja só como a vida é engraçada. Uns 15 anos mais tarde, já adulta, virei, sem querer, chefe de um dos caras mais populares da escola. Não fui eu quem o contratou. Houve uma reestruturação na empresa e ele caiu no meu departamento. Golpe do destino mesmo. A essa altura do campeonato eu já era bem-sucedida, realizada, tinha um namorado maravilhoso e, portanto, estava cagando e andando para a turminha pop que tanto me atormentou. Mas confesso que quando esse cara virou meu subordinado me lembrei exatamente de como aquela fase tinha sido dura para mim. Tive muita vontade de voltar ao passado, bater na porta da menina gordinha que se escondia no banheiro e dizer: “Ei, não fica triste. Você é tão boa ou até melhor que esse pessoal que está lá fora. E isso tudo que parece muito importante agora no longo prazo não vai ter quase nenhum valor.” 

Tenho vontade de dizer a mesma coisa para a minha filha agora. Dizer que não tem problema ter uma mãe brasileira que não deixa ir à escola sem meia-calça. Que tudo bem não saber ver as horas e não ter relógio.

Queria que ela acreditasse que vai dar tudo certo. Mas eu sei que dizer isso tudo agora é quase inútil. A Maria só vai acreditar em mim quando ela mesma puder olhar para trás e vir que de fato deu tudo certo. Enquanto isso, só me resta ficar ao lado dela. Não necessariamente lhe dando o relógio de presente. Mas ajudando-a a ser forte e a vencer, com as armas que ela tem disponíveis, suas próprias batalhas. Resta tentar ensiná-la a amar a si mesma, com ou sem meia-calça. E um dia, se Deus quiser, ela vai se dar conta de que deu tudo certo. E para meu grande alívio, eu também.

 

Camila Furtado é mãe de dois filhos, mora na Alemanha e depois daquele ano em que se escondia no banheiro, mudou para uma escola em que fez um milhão de amigos. Hoje, com amigos no mundo inteiro, só se esconde no banheiro quando precisa de um minuto de sossego em casa. 

Meu lado B

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A mãe obsoleta

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