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Ontem, meu filho me perguntou por que eu não conseguia descolar do Facebook esses dias. Ele detectou, com suas anteninhas, algo de diferente na calma habitual do nosso cotidiano alemão. Então sentei-o no meu colo e passei a lhe contar histórias do além-mar. De um gigante acordando de um sono profundo. De um país do outro lado do mundo, ligado a ele pelo cordão umbilical de sua mãe.

Falei do Brasil e de pessoas recebendo bala na cara, quando tudo o que traziam eram flores na mão. Da coragem de amigos e desconhecidos  rebelando-se contra a repressão. De ruas conquistadas por pessoas indignadas clamando por justiça, saúde, educação, segurança. Gente que ainda não desistiu de ter esperança.

Não quis mostrar a Jan todas as imagens divulgadas, algumas pesadas demais para uma criança. Mas quis dividir com ele toda a minha tristeza por estar longe, nesse momento tão importante. Ao mesmo tempo, desejei que ele comprendesse por que o computador agora, mais do que nunca, era essencial para mim. Cada texto, cada imagem compartilhada transporta, pelo éter, sentimentos e vibrações, unindo mentes e corações. Era fundamental que ele soubesse que, não importa se vivemos na Alemanha, na Turquia, na Tunísia ou no Brasil - quando estamos antenados, as fronteiras se dissolvem, e o que prevalece é o anseio comum por transparência e dignidade. 

Acho que, por fim, Jan me perdoou por ter que dividir sua mãe com a comunidade virtual por um tempo maior do que o normal. E, hoje, quando chegou o e-mail de outra brasileira na Alemanha, nos convidando para uma manifestação em Colônia, na frente da Catedral, ele foi o primeiro a se animar: “É claro que vamos lá!”

Então, no sábado, nos apropriaremos da beleza sublime da Catedral de Colônia, da sua poderosa energia milenar, da sua imponência majestosa para mostrar aos brasileiros no Brasil que eles não estão sozinhos. Estaremos vestidos de branco, pela paz no movimento. E estaremos torcendo para que ninguém nunca mais precise deixar seu país por uma vida melhor em outro lugar. Para que o melhor lugar do mundo seja simplesmente aquele onde se está.

 

Adriana Nunes mora em Colônia desde 1990. Ela é autora do livro "Nur die Edelsteine kommen aus Brasilien", sobre brasileiros que vivem na Alemanha. Ao colher os depoimentos para o livro, Adriana percebeu que todos os entrevistados tinham algo em comum - sonharam com uma vida melhor fora do Brasil. Mas o país continuara, para sempre, dentro de seus corações. 

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