As amizades que nossos filhos nos trazem

As amizades que nossos filhos nos trazem

Ilustração: Carolina Furtado

Foi por força das circunstâncias que ficamos amigas. Nossos filhos nasceram com 3 meses de diferença e as dificuldades de mãe de primeira viagem, recém chegadas em um país estrangeiro, nos aproximaram. De tão diferentes, talvez não tivéssemos nos aturado em outra situação. Ela menina do interior, voz mansa, maneira simples de encarar a vida, e uma dificuldade em tomar decisões que sempre me enlouquecia. Eu cosmopolita, prática, objetiva, a executiva que tinha assumido com indignação as tarefas do lar. Em comum, naqueles primeiros meses tínhamos pouco além de um bebê no colo, uma casa bem desarrumada e um marido alemão. 

Mas nos ajudávamos. Nos consolávamos. Dividíamos orgulhosas, todos os truques aprendidos e comemorávamos cada conquista.  Enquanto nossos filhos cresciam, íamos virando mães juntas. Enquanto um aprendia a falar o outro não dizia mais que 5 palavras. Um largava a chupeta hoje, o outro só em dois anos. Um gostava de comer muito, o outro odiava. Um dormia à tarde, o outro varava até noite sem dormir. Melhores amigos: Maria e Lucas. Eram os primos substitutos para os primos que ficaram no Brasil. E juntos com eles, eu e a Karina iamos contruindo algo cada vez mais forte.

Os maridos, que no começo mantinham uma distância cortês, constrangidos com aquela amizade imposta pela convívio de porta, aos poucos foram se entendendo, identificando os pontos comum, aprendendo coisas novas um com outro.

Quando meu segundo filho nasceu e recebi alta do hospital, a Karina foi me buscar na maternidade. Meu marido não podia ir. É médico, teve que atender uma emergência. Saímos da maternidade parecendo um casal de lésbicas. Eu com o bebê no colo, ela levando a mala. Radiantes. Dentro do carro, naquele dia lindo de primavera, eu pensava como a vida é louca. Meu filho nasceu e é essa menina do interior de São Paulo, de uma cidade que eu antes nem tinha escutado falar, que está aqui comigo, tirando fotos, se emocionando, me dando a mão.

Compartilhamos o cotidiano. A escola dos filhos, o frio no inverno, a receita da sopa, a reclamação da noite mal dormida, o parquinho do bairro, a baby sitter. E é por isso que dá um aperto no coração quando a gente sabe que eles vão se mudar para outra cidade. Quando eles se forem, um pedaço do nosso mundinho, do jeito que a gente conhece hoje, vai com eles. 

Fico triste quando lembro que para este verão europeu, a Maria e o Lucas tinham planejado construir o maior labirinto de água já existente, com barreiras e túneis,  no jardim da Karina. Não vai dar tempo. Penso no Lucas, tão apaixonado pela Maria, aproveitando qualquer oportunidade para checar comigo os planos de casamento futuro. Será que vai dar casamento mesmo, apesar da distância? Já tenho saudades. Imagino meu filho menor passando na frente da casa deles e gritando "ucas, ucas, ucas", me puxando para entrar. Ucas não está filho. E o feijão?  Penso no feijão bem temperado da Karina. Eu não sei fazer feijão. Ela sempre cozinhava um pouco a mais para sobrar para as minhas crianças. 

Eles vão embora e eu ainda não tive coragem do contar pra Maria. Mas não quero olhar para essa mudança com tanta melancolia. Quero focar na lição: nossos filhos nos levam a caminhos e pessoas que nós nunca encontraríamos se não fosse por eles. É só abrir bem os olhos e o coração.  Que nossos amigos sejam felizes, que se abram novos caminhos para eles, e para nós. E finalmente: que a aventura possa continuar.

 

Karina, Ulf e Lucas, nossos vizinhos nos últimos 3 anos, se mudam mês que vem para Konstanz, uma cidade na fronteira da Alemanha com a Suiça. Nós continuamos em Colônia. Karina vem de Caconde, cidade que segundo ela, está entre as maiores maravilhas do mundo.

 

A mãe obsoleta

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