Como será a minha vida quando meu filho crescer?

Como será a minha vida quando meu filho crescer?

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Sábado à noite. Meu filho foi dormir na casa de um amigo. O tempo está ruim, não estou animada para sair, vou ficar mesmo por aqui.

Ultimamente, Jan quase não pára em casa. Engraçado, esse dia, que eu achava que nunca chegaria, chegou muito mais rápido do que eu pensava.

Lembro-me que, quando ele era bem pequenininho, eu ficava fantasiando tudo o que faria, assim que tivesse tempo para mim. Na época, eu não conseguia nem passar uma sombra no olho. Perdi a conta dos convites que recusei, das viagens que não fiz, das baladas que perdi, para cuidar do meu filho. De uma hora para outra, eu me tornara a criatura mais modesta na face da terra. Sonhava apenas em passar uma tarde inteira num café, bebendo qualquer coisa, sem precisar me levantar nem para ir ao banheiro.

Flanar pelas ruas como antigamente… nem pensar. Ao invés disso, eu funcionava com precisão. Cada minuto era programado: mingau, banho, levar Jan para o jardim de infância, trabalhar, pegar Jan no jardim de infância, banho, jantar, cama. Repita.

E agora que meu filho prefere brincar com Luca do que ir ao parque comigo, não sei nem o que fazer com o tempo livre, ainda mais sem marido! Um luxo, do qual me privei durante tantos anos, uma vez recuperado… perde o glamour.

Eu achava que, quando esse dia chegasse, tomaria um longo banho de banheira, me enfeitaria toda e sairia correndo em busca dos amigos, que há muito haviam desistido de mim. E, no entanto, aqui estou, de pijama, na maior preguiça do mundo, deitada na cama.

Minha irmã diz que é meu corpo se recuperando do cansaço de toda uma década. Como uma gripe que só eclode, depois que o estresse passa. Pode até ser, mas explica tudo? Acho que o motivo é outro. Lembra um pouco o fascínio das coisas proibidas. Quando somos impedidos sistematicamente de algo, isso vira obsessão. Suspensa a proibição, o objeto de desejo empalidece. Tem a ver também com a própria natureza do desejo. Uma vez realizado, abre espaço para outros, assim como a brasa de um cigarro quase consumido acende um novo, deixando, por fim, um tédio ou um gosto amargo na boca.

Será por isso que, esta noite, vendo o apartamento tão silencioso, sinto um pouco de desânimo? Ou talvez seja apenas minha incapacidade de viver o presente plenamente. Já pressinto o vazio do dia em que meu filho sair de casa para sempre. 

Ontem, quando meu vizinho cruzou comigo na rua, me perguntou por Jan. “E eu sei lá por onde esse menino anda!”, debochei. Em resposta, ele me contou a história de sua mãe: „Ela teve o azar de enviuvar, logo que me tornei adolescente. A partir de então, era vista sempre sozinha pelo bairro.”

Será que ele quis me alertar para o futuro? Seja como for, depois dessa conversa, fiquei meio cismada. “É, talvez, esteja mesmo na hora de parar de focar só em filho, filho, filho e arranjar um gato que me roce as pernas de vez em quando…”

 

 Adriana Nunes é formada em jornalismo em Brasília e em literatura na Alemanha. Recentemente formou-se professora de yoga. Ela mora sozinha com o filho de 11 anos em Colônia, Alemanha. No que diz respeito a animais, ela sempre preferiu cachorros a gatos. No que diz respeito a homens, é preferível que seja gato mesmo.

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