A mãe obsoleta

A mãe obsoleta

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Você se esforçou tanto.

Acordou, durante meses, de madrugada e foi amamentar, tropeçando pelos cantos. Insistiu na papinha feita à mão, quando seria mais fácil apelar pros potinhos. Trocou pilhas e mais pilhas de lençóis molhados, pois seu filho não entendeu quando chegou a hora de largar a fralda. Cancelou várias vezes um encontro com uma velha amiga, ganhou olheiras e barriga e desencanou dos hobbies mais queridos. Perdeu horas na internet pesquisando jogos didáticos e investigando os efeitos de uma pomada para sapinho. Criou calo, andando pela cidade atrás de uma fantasia de pirata, e desistiu do pediatra natureba, porque a aversão dele a antibiótico quase matou seu bichinho. Recusou uma oferta de emprego irrecusável, porque a tosse de cachorro infindável do guri revelou que ele ainda não queria se separar de você. Entrou, esbaforida, dentro de casa, portando num braço o menino e, no outro, uma sacola de compras pesada. Largou o namorado boêmio, que não tinha vocação para pai, muito menos do filho dos outros. Fez amizade com vizinhas bisbilhoteiras, pois sabia que na hora do sufoco contaria com o seu socorro. Ficou atônita e enlameada, quando na manhã do seu aniversário, em vez de um beijo, recebeu um jato de vômito na cara. Aguentou papos repetitivos de mães obcecadas, afinal seu filho precisava da companhia dos filhos delas. Ficou uma tarde inteira sem se mexer, deitada no sofá, quando o garoto, febril, adormeceu de bruços no seu peito, e você não quis acordá-lo. Escalou, a duras penas, a escadaria íngreme da infância dele, até chegar aqui, no décimo-segundo andar, e eis que aquele bebê inocente se tornou um adolescente.

E hoje de noite tem festa na escola, sendo a primeira vez que seu filho vai a um evento social acompanhado só por gente de sua idade. Você finge que não está preocupada, quando o vê pronto para sair, rodeado de amigos descolados. Antes de despedir-se na porta, ainda se oferece, prestimosa, para buscá-los. Mas ele te puxa de lado e, no seu tom cool, recém-adquirido, declina: “É melhor a mãe do Luca, que é mais novinha, aparecer por lá. Você já está meio obsoleta para esse negócio de festa.”

Você se despede, sem beijo, para não pagar outro mico, e faz o possível para ocultar o coração partido. Sozinha em casa, vai correndo pro espelho e admite, pela primeira vez, que as turbulências dos últimos anos deixaram marcas no seu rosto, apesar dos preciosos cremes que você passou diariamente e com tanto gosto.

Você se esforçou tanto…

 

Adriana Nunes é mãe de um menino de 11 anos. Aos poucos ela começa a entender que se tornar obsoleta, apesar de duro, é sinal de que uma nova fase da sua vida está começando. Uma fase com uma liberdade que fazia tempo que ela não experimentava. 

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