O grito

O grito

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Bom, se fosse para escolher um título para este texto, escolheria um nome simples e polêmico nos dias de hoje, um nome cujo próprio significado é uma exclamação. Daria como título: "O grito“. 

Este ato-gesto, que na maternidade nos escapa da alma, que todos hoje julgam nocivo para crianças, que é abominante, enfim, o grito - eu o acho muito valioso. 

Antes de ser mãe, eu não gritava, gemia de prazer nas horas de amor, às vezes balbuciava uns urros ou algo parecido, mas não gritava. Eu tenho o hábito de falar baixo. Mas sei também impor minha voz nas horas de argumentar ou de enfatizar uma idéia. 

Pois bem, depois que meus filhos nasceram, (sou mãe de gêmeos de 4 anos), quando eles chegaram lá no alto de seus 2 anos, este gesto-ato que chamamos grito surgiu em mim, assim de algum lugar que eu nem supunha existir, e se impôs. "Menino, bota o casaco que está frio!" "Menina, não fale com sua mãe desse jeito, olhe o respeito!"  E nessa tonalidade muitas vezes disse também palavras que machucam, mas que eu mesma acabava escutando. Não sei se entendem... É como se gritando pros meninos eu me ouvisse, me escutasse falar. E assim fui me ajustando. Aos berros, aos gritos, acho que hoje em dia falo alto para que me escutem em certos momentos. Não consigo falar como aeromoça, já tentei, mas não sou eu. Venho de uma linhagem de mulheres nordestinas que falavam alto para enfatizar noções de perigo, para alertar para uma regra... 

Meu filho, quando está com raiva, vai sozinho pro quarto e grita.  É como se ele tivesse encontrado no grito algo que o liberasse. Depois volta contente, tranquilo, e retoma a brincadeira. Mas meus filhos também gritam de alegria. Eu também ás vezes "baixo" a baiana, mas aviso antes, e aquilo vira brincadeira. 

Hoje em dia, me sinto menos culpada. É como se tivesse me aceitado, aceitado a existência de uma parte dessas mulheres que carrego em mim. Minhas amigas também "gritam" ou falam alto, reclamando. Outro dia, minha filha fez algo que fez meu marido e eu rirmos. Botou as mãos nas orelhas (e olha que eu não estava berrando) e tapou os ouvidos, rindo. Rimos também. Percebi que ela já encontrou defesas, que ela sabe "aringar" da sua forma, sabe brincar com esse falar alto dos pais, como se ela soubesse que é ela quem decide o que quer ou não escutar. Nao é sistemático, não é excessivo, mas está lá. Acho que ela e o irmão circulam e do jeito deles reproduzem o lance do grito.  É nossa transmissão familiar. E do grito ao canto, eles cantam também e muito.

 

Esse texto foi enviado por uma leitora e editado para a coluna "Mães Anônimas". Agradecemos nossa leitora pela sinceridade e por confiar sua história ao nosso blog.

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