Desbravando outros mares (ou porque eu fechei a fábrica).

Desbravando outros mares (ou porque eu fechei a fábrica).

Hoje estava vendo um vídeo maravilhoso de um recém-nascido tomando banho. Era a coisa mais gostosa de ver. O bebezinho de olhinhos fechados, curtindo a água morna que acariciava o corpinho dele, até suspirava de prazer. Tudo tão puro... Sinceramente, o que pode ser mais mágico que um bebê desse tamanho? 

Quando me lembro desses momentos fascinantes que passamos com um recém-nascido, sinto por vezes um pingo de nostalgia. Nessa vida, acabou a fase bebezinho para mim, já que não vou ter mais um. Até poderia, mas não quero. Eu amo famílias grandes, acho o máximo ter irmãos e é bem provável que se eu fosse mais nova, ainda não tivesse descartado totalmente a hípotese de ter mais um filho em um futuro distante. Mas hoje, quando eu olho com franqueza para mim mesma, vejo que não posso mais cuidar de ninguém. Eu preciso é urgentemente cuidar de mim.

Tive um filho depois do outro, eles têm 2 e 4 anos. Dentro de um mês o mais novo começará a frequentar a escolinha em tempo integral. Eu sinto como se tivesse corrido uma maratona e agora estou a poucos metros da linha de chegada. Mal consigo esperar por esse momento no qual meu filho é, segundo as práticas aqui na Alemanha, grande o suficiente para começar uma vidinha independente de mim, com outros protagonistas. E sendo fisicamente menos necessária na vida do meu filho, poderei então voltar a ser mais presente na minha própria vida e botar em prática a enorme lista de coisas pendentes que acumulei nesses 4 anos, desde que a minha primogênita nasceu. 

Posso, contudo, entender perfeitamente mulheres que se decidem por 3, 4 filhos. No fundo eu gostaria de ser uma delas. Imagino que provavelmente essas mães puderam contar com mais ajuda ou tiveram uma estrutura de apoio maior que a minha. Ou não. Pode ser que elas tenham cuidado de seus filhos como eu, sem babá, sem empregada e sem família por perto. O fato é que cada um absorve as coisas de uma maneira, talvez elas não estejam tão cansadas, ou por alguma fórmula milagrosa, não tiveram que renunciar tanto das suas vidas como eu fiz, por necessidade e também por vontade própria. 

Mas no meu caso, apesar de toda a alegria que as crianças me trazem, se eu continuar prestando tão pouca atenção nos meus interesses, vontades e necessidades, vou ser infeliz. E isso vai ser uma merda para mim, mas também vai ser uma merda para os meus filhos: eu acredito que a gente só consegue ser uma mãe legal se a gente é feliz.

E eu sei que o que vai me realizar agora não é mais um filho. O que eu quero é dormir noites inteiras, viajar, encontrar meus amigos, correr, me dedicar aos meus projetos, quero trabalhar com mais energia, aprender a meditar, organizar festas. Quero ser um pouco mais eu.

Além disso tudo, agora que meus filhos estão crescendo, tenho que começar a me entender com um fato óbvio: meus filhos não serão bebezinhos, nem crianças lindinhas para sempre. Nem que eu tenha 10 fofuras mais. Tudo vai passar. As coisas legais e as coisas chatas. Pretendo então, para preservar minha saúde mental, tentar adotar uma abordagem budista: concentrar minhas energias no presente. Viver cada momento deles com intensidade, consciente de que eles não voltam, para depois eu não olhar para trás e pensar: será que eu dei esse banho relaxante nas crianças quando eles eram bebezinhos? 

Sabe que minha filha mais velha, Maria, aprendeu a andar de bicicleta faz uns dois meses. Ontem foi a primeira vez que a gente achou que ela estava segura o suficiente para desbravar caminhos mais longos. Nós fomos de bicicleta, eu, meu marido, a Maria e meu filho menor (na cadeirinha) até as margens do rio Reno que fica a uns 2 quilômetros aqui de casa.  Depois de muitas pedaladas, de muitos "cuidado, Maria", a gente chegou lá.  Foi muito emocionante, parecia uma aventura... Nossa recompensa era aquela paisagem maravilhosa com árvores seculares nas margens do rio e um dia lindo de sol e céu azul. Eu e meu marido sentimos o maior orgulho. A Maria conseguiu. Nós finalmente chegamos de bicicleta nas margens do rio Reno. Claro que dá uma saudade pensar quando as crianças eram bebês, mas agora eu quero mesmo é me concentrar nos rios Reno que vamos desbravar. Também é bem legal ter filhos grandes.  

 
MariaHolgerbicicleta.JPG

Camila Furtado mora na Alemanha, é mãe de Maria e Gael.  Se um dia for avó, vai pedir licença a filha e a nora, pegar os netinhos recém nascidos e lhes tascar uns banhos relaxantes. 

 

A paciência inesperada

A paciência inesperada

Como manejar um pré-adolescente?

Como manejar um pré-adolescente?