Como manejar um pré-adolescente?

Como manejar um pré-adolescente?

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O verão estava infernal. Um mormaço esmagador, raro, mas típico dessas bandas de cá, e, como se não bastasse o sufoco térmico, meu filho descobrira sua veia rebelde. Nenhuma ordem, nenhum pedido era atendido. Para piorar, a avó tinha acabado de chegar do Brasil, com a firme resolução de estragar o neto de vez. Nas minhas disputas com Jan, unia-se ao menino invariavelmente, acusando-me de impaciência e severidade excessiva. Dizem que mãe é para dar limites. Avó é para mimar. Nessa história toda, claro que eu saía de megera.

Eu vomitava minha frustração sobre o primeiro que aparecesse. As vítimas mais recentes foram meus vizinhos, um casal de professores. Tão consternados ficaram que se dispuseram a me emprestar um Manual de Parentalidade Positiva, que, entre outras coisas, aposta na comunicação sincera e amorosa entre pais e filhos, para superar os conflitos.  

Dias depois, além do manual, encontrei na caixa de correio um convite para jantar na casa deles. Estava endereçado aos três. Quase desmaiei. Nem sequer cogitava levar Jan, naquela fase pré-adolescente “descontrol total”, para uma reunião de gente civilizada. Liguei para Christine alegando que minha mãe estava resfriada e Jan faria companhia à avó. Mas a anfitriã inveterada, soube rebater, direitinho, todas as minhas desculpas esfarrapadas.

Não tive remédio a não ser aparecer lá, no sábado seguinte, com a tropa toda. Por sorte, a mesa estava posta na varanda que dava para o jardim. “Se acontecer algum desastre, provavelmente aqui fora os danos serão menores.”, considerei. 

Os amigos de Christine e Peter já estavam sentados à mesa. Descobri, horrorizada, que eram todos da área educacional. Será que aquilo fora um arranjo proposital? Christine devia ter constituído, de última hora, um Conselho Pedagógico Interino para fazer a anamnese de meu filho e solucionar nosso caso. Previ que suas boas intenções acabariam em fiasco. Se Jan aprontasse só um terço do que andava aprontando em casa…

Sentamo-nos ao lado de um diretor de ginásio aposentado, que nos cumprimentou com uma polidez reservada, inspecionando Jan por detrás de seus óculos de aro dourado. Uma psicopedagoga portuguesa tentou quebrar o gelo: “O menino quer um pouco de sumo?” Não obteve resposta. Jan, emburrado, estava mais empenhado em arrancar um cálice de licor da minha mão. Empurrei seu braço discretamente e sussurrei: “Aqui, você não se atreva…”

Quando chegou a entrada, meu desconforto não podia ser maior. O aborrecimento de Jan era palpável. Balançava a cadeira o tempo todo e estava a ponto de cair de costas, espatifando a cabeça na escada da varanda, não fosse a ideia providencial de Peter de engajá-lo como seu ajudante. Contrariando minhas expectativas, Jan aceitou. E eis que, ao invés da catástrofe anunciada, a noite milagrou. Os dois se entenderam super bem. Durante todo o jantar, Jan esmerou-se, trazendo e retirando travessas fumegantes, recolhendo taças e talheres e conquistando todos com seu charme. Não verteu uma gota sequer de bebida na toalha nem soltou um resmungo. À medida que o entusiasmo da plateia aumentava, ele incrementava o show. Na hora da sobremesa, suas boas maneiras estavam no auge – ajudou a cortar e a servir delicados corações de morango sobre um creme de baunilha, como um exímio chef francês. Não preciso nem dizer que o Conselho Pedagógico se rendeu de vez. Terminado o serviço, o diretor do ginásio alemão lhe deu uma gorjeta e os outros convidados se derramavam em elogios.

Arranjei logo uma desculpa para partir. Protestos gerais. „Por que não ficam mais um pouco?“ Mas eu já disparara em direção à porta, com Christine, esbaforida, na minha pegada. Ela esperou que Jan saísse primeiro com minha mãe, e, num tom mais do que cuidadoso, comentou: „Seu filho é encantador… Será que não é você que anda estressada? Que tal tirar umas férias e deixar o menino conosco?”

Murmurei, mortificada, um agradecimento qualquer e saí batida, rezando para que minha mãe não tivesse captado a conversa. Mas Dona Célia me esperava a uns passos da entrada, com uma expressão triunfante. Desviei o olhar, irritada. Jan, que havia saído correndo na frente, percebendo meu aperto, voltou e pulou nos meus braços: “O que foi, mamãe? Não me comportei direitinho?” 

Tive vontade de lhe dar uma palmada, ali mesmo, no meio da rua, consolidando minha fama de megera, mas era óbvio que não teria coragem. Ao invés disso, afaguei seu rostinho sorridente: “Você foi maravilhoso, amor. Morro de orgulho de você.”

Foi quando minha mãe se intrometeu de novo, encerrando o assunto para sempre: “Em vez de reclamar tanto do menino, faça como Peter fez: confie nele. Vai ver como ele corresponde mais.”

Chegando em casa, fui correndo empacotar o livro para devolver à Christine. Afinal, com uma mãe como a minha, quem ainda precisa de manual?

 

Adriana Nunes é formada em jornalismo e literatura e trabalha para uma organização de cooperação internacional. Mora na Alemanha, com seu filho pré-adolescente, cujo comportamento é irrepreensível até para diretores aposentados de rígidos ginásios alemães. 

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