Uma nova vida sob o céu de estrelas

Uma nova vida sob o céu de estrelas

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Ela chegou, destroçada, na Escola de Música que nossos filhos frequentavam juntos. Me puxou de lado, desabou numa cadeira e desabafou: “Não conte pra ninguém, por favor. Estou me separando do Alex.”

Tomei um susto. Não fazia muito tempo que o pai das crianças tinha vindo buscá-las na escola e não havia nenhum indício de conflito. 

“E não havia mesmo!”, explicou Ana Paula. “Foi tudo da noite pro dia.” Ainda incrédula, me contou como o marido, na véspera da Páscoa, reuniu a família e, sem a menor sensibilidade para a importância da data, informou as filhas que a abandonaria: “A partir de amanhã, sairei em busca de uma nova mulher.”

Transtorno psíquico por estresse e excesso de trabalho, concluiu minha amiga. Isso passa…

A transformação do marido não foi, porém, um mal passageiro como ela imaginava. Antes mesmo do ano acabar, Ana Paula já tinha encontrado um SMS da amante no celular dele. Confrontado, Alex reagiu como um animal enfurecido: “Deixe-me em paz!”

Homem de meia-idade larga mulher por menina de vinte anos. Esta notícia já estamos carecas de escutar. O diferencial era o fato desse casal ser binacional, com guarda compartilhada, sujeito a leis internacionais. Uma delas impedia que Ana Paula se mudasse de cidade com as filhas, mesmo que fosse para o vilarejo vizinho.

Minha amiga, que tinha vindo para a Alemanha, exclusivamente por causa do marido, exasperou-se. Tudo o que ela queria era reaver seu direito de ir e vir, pegar as crianças e retornar para o Brasil. Ela não tinha ideia de quanto seria difícil reconquistar algo tão básico.

E assim se iniciou uma longa fase de exílio involuntário. Ana Paula deprimiu. As maçãs do rosto murcharam. Nuvens negras embaçaram seus olhos, antes tão vivazes. Emagreceu. Sua aversão à ideia de envelhecer, sozinha, na Europa era tamanha que até as frutas daqui lhe faziam mal. Era comer uma framboesa que sua pele toda empolava. 

Eu não aguentava ver seu sofrimento. Cogitava mil maneiras de ajudá-la e não encontrava absolutamente nenhuma, além de lhe indicar uma conceituada advogada. Uma vez, descobri numa revista um artigo sobre um francês que ajudava mães em situações semelhantes a sequestrar as crianças da Alemanha para seu país de origem. Por um segundo, considerei a ideia de contratar seus serviços. Mas eu e Ana Paula éramos corretas demais para isso. Jamais teríamos coragem de burlar uma lei.

Enquanto isso, as crianças desenvolviam tiques nervosos. A pressão, as humilhações, as perseguições do pai deixavam rastros. Era como se ele mesmo não se aturasse pelo que fizera, e, em vez de se auto-agredir, agredia a família.

Apesar de todo o desespero, houve dias em que nós duas conseguíamos rir. E até vislumbramos juntas uma possibilidade de salvação: a nova mulher ia acabar dando o “golpe da barriga”. Nas atribulações com o bebê, Alex terminaria por preterir as filhas do primeiro casamento.

Não deu outra. Logo depois, a amante engravidou. Pouco a pouco, Alex passou a se distanciar emocionalmente da família, afrouxando as rédeas do controle. E um dia, finalmente, consentiu que Ana Paula voltasse com as filhas para o Brasil.

Liberdade, ainda que tardia. Nunca vi ninguém tão contente com o retorno. Tão alegre ela estava que, mal pisou em solo brasileiro, me escreveu uma longa carta, descrevendo seus motivos para estar tão feliz. O que mais me comoveu foi justamente o mais singelo de todos: “Poder ver, toda noite, o céu estrelado, da minha janela“. Algo quase impossível numa Europa eternamente cinzenta e nublada.

Daqui da Alemanha, fico torcendo pela sua felicidade. Espero que o Brasil cure todos seus traumas. Quando a saudade aperta muito, até consigo vê-la, na sua cama imensa, contemplando à noite o Cruzeiro do Sul. E sendo despertada de manhã, radiante, por um sol brilhante num céu infinitamente azul.

 

Adriana Nunes mora na Alemanha e é formada em jornalismo e literatura. Tem muitas amigas brasileiras na Europa, mas volta e meia tem que se confrontar com a perda delas, quando voltam para o Brasil. Compreensível: existem momentos da vida em que o céu tem que ser estrelado.

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