Faça uma coisinha por você

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No dia 26 de dezembro eu finalmente corri. Apesar de ter sido uma das corridas mais lentas da minha vida, foi uma das melhores. Nunca vou esquecê-la. Eu estava com um nó no peito, engasgada entre a gravidez, o pós-parto e o tempo que passei enclausurada terminando um mestrado. Fazia quase 2 anos que não me mexia. Para mim, corredora amadora, que depois de muita insistência tinha aprendido a digerir tristezas, maus-humores e quilos extras com o esporte, tinha sido difícil ficar esse tempo parada. Mas como arranjar tempo e disposição para correr se eu nem dormia? 

Choveu durante a corrida. Uma chuva de verão na serra, onde eu tinha ido passar o Natal com minha família. Quando vi a água começando a cair, lamentei o azar e tentei me abrigar em um telhadinho que encontrei pelo caminho. Não fiquei nem 2 minutos ali e percebi que não queria parar. Voltei a correr, dessa vez na chuva. 

Recordei dos aguaceiros da infância, quando minha mãe abria a porta dos fundos e eu e minha irmã saltitávamos alegres e ensopadas pelo quintal de um sobradinho em Ipanema. Lembrei-me também do banho de chuva que tomei com uma amiga querida, as duas ainda solteiras, voltando de uma festa em Boipeba. 

E assim, correndo sem me importar com a água que caía no rosto, me senti livre. Pensei que mais um ano estava começando, agradeci aos céus pelo meu filho recém-nascido, pelo mestrado terminado. Estava carregando tantas coisas durante aquela corrida que não sei como conseguia me sentir tão leve. Quando voltei para casa, encontrei meu pai se divertindo com os netos no colo. Ele me olhou curioso: eu tinha o cabelo e as roupas encharcadas, mas sorria. Não sei se percebeu que eu também chorava – de alegria. 

Depois daquele dia corri muitas outras vezes. Claro que nem todas foram corridas na chuva. Algumas foram com sono, outras foram sem vontade, outras foram bem curtas – como são as de uma mãe de duas crianças pequenas que não tem tempo para nada. Houve ainda “corridas-terapia”, quando eu precisava ordenar os pensamentos, e aquelas só para aproveitar o tempo bom. Mas uma coisa todas essas corridas tinham em comum: elas começavam difíceis, enroladas em meio a um cotidiano abarrotado. Porém, invariavelmente, terminavam felizes e eu agradecia a mim mesma por ter conseguido.

Aquela tinha sido uma fase difícil e agora, com a vida um pouco mais tranquila, eu estava orgulhosa de ter conseguido encontrar um momento só para mim. Que não tivesse a ver com o marido, os filhos ou o trabalho.

Que fosse pouco, já que mais não podia ser, mas que sempre houvesse.

Sei que às vezes vai me custar um pouquinho de egoísmo, um pouquinho de loucura e, na maioria das vezes, bastante coragem. Mas estou disposta a nunca mais me perder de mim mesma.

 

 

Camila Furtado é mãe de Maria, de 4 anos e Gael de 2 anos. É formada em Comunicação Social e há dois anos concluiu um MBA em Sustentabilidade pela Universidade de Lüneburg, na Alemanha. Ela não quer convencer ninguém a correr, só lembrar que todo mundo precisa arrumar sua válvula de escape.

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