Os filhos que não tivemos

Os filhos que não tivemos

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Nunca imaginei que, ao engravidar pela primeira vez, seria invadida por uma felicidade tão intensa, que só podia ser traduzida como o sentimento de viver pairando, sem nunca mais tocar os pés no chão. Era como se eu fosse uma folha bailando ao vento, ao som de uma música invisível, cujos tons eram pura alegria, afeto e plenitude. De repente, a vida fazia sentido, e nada mais era urgente, além do desejo de abrigar aquele serzinho que se desenvolvia no meu ventre.

Passei muitos dias nesse estado de levitação, até ser apanhada, de surpresa, por um forte redemoinho, que me fez girar, girar, girar, até me lançar, com toda a força, de volta à terra, como se, de repente, a terra se constituísse apenas de uma lei: a lei da gravidade, da perplexidade e da destruição.

Aconteceu numa tarde, quando eu voltava do trabalho. Tinha sido um dia rotineiro, sem nenhum sobressalto, e eu me sentia ágil e bem disposta. De repente, porém, fui acometida por um profundo torpor e necessidade de me deitar. Um raio de sol incidia sobre minha cama, quando me estirei e acariciei minha barriga. Mas, ao invés do contentamento e calor que eu sempre sentia acarinhando meu bebê, percebi naquela tarde apenas um vazio devorando minhas entranhas. Pressentindo algo de horrível, liguei para meu ginecologista, que me atendeu no mesmo dia. Ele me examinou com cuidado e, como se estivesse enfiando um bisturi no meu corpo, confirmou aquilo que eu já sabia: o bebê estava morto dentro de mim. 

O médico reagiu de imediato, me enviando a uma clínica, onde eu seria submetida a uma curetagem. Enquanto as enfermeiras me despiam, rompi em pranto. Pouco depois, a anestesia passou a fazer efeito e tudo escureceu ao meu redor. Quando a operação terminou, fui para casa, esmigalhada, com a vaga sensação de que o feto expelido tinha sido o de uma menina. 

Nos meses seguintes fui tragada pelo vácuo. Nenhuma fruta, nenhum aroma me apetecia. Evitei os amigos. Apaguei mensagens no celular sem ler antes uma palavra sequer. Afastei-me do trabalho por ordem médica. Ficava horas imóvel na cama, no escuro, tentando distinguir uma fresta de luz na janela. Meus olhos tateavam pelo espaço, mas tudo o que conseguiam era se afundar mais ainda na escuridão.  

Não sei quanto tempo vaguei assim, sem rumo. Eu havia perdido a mim mesma, havia perdido o mundo. Até que, uma noite, adormecendo de cansaço e resignação, tive um sonho que mudaria minha vida para sempre. 

Sonhei que estava deitada às margens de um lago plácido, circundado por montanhas iluminadas pela luz do crepúsculo. A água tépida lambia os meus pés levemente. Além do sol, da brisa e das águas, nada mais se movia na fresca da tarde. Minha cabeça repousava sobre uma pedra, e meu corpo desfrutava, imóvel, da suavidade da terra. Estava quase cochilando, quando algo estremeceu nos meus braços. Olhei para baixo e vi uma garotinha adormecida sobre meus seios. Sua tez radiante e translúcida refletia as cores do crepúsculo e seus cabelos eram dourados como o sol poente. A barriguinha dela, colada na minha, contraía-se e dilatava-se suavemente, acompanhando o ritmo da minha respiração tranquila. Então eu soube que aquela menina era o bebê que eu havia perdido meses antes.

Acordei com uma sensação de paz e alívio. Era como se eu tivesse ido, à noite, ao encontro da minha filha num outro plano, um plano onde nada se perde, onde transcendemos a dor, o bem e o mal. Um campo neutro e eternamente verdejante, onde a vida continua além do alcance da nossa compreensão. Cheia de gratidão e com uma atenção redobrada, iniciei o dia. Meu coração transbordava de uma estranha alegria.

Depois disso, mesmo nos momentos de maior tristeza e nostalgia, eu entrevia, uma vez ou outra, aquela paz. O encontro com minha filha assemelhara-se a um estado de graça, onde a alma é tomada por uma serenidade sublime, inalcançável na estreiteza da nossa condição humana. Percebi que eu amara aquela criança como se ama uma semente que nunca chega a lançar suas raízes na terra, mas deixa uma promessa no coração. 

Talvez tenha sido essa promessa que me animou a engravidar de novo. Anos depois, quando meu filho brotou – uma criança vivaz e alegre – trouxe, mais uma vez, a esperança de felicidade aqui mesmo nesta esfera onde nos encontramos ainda. E quando o mirei pela primeira vez, vi que tinha a mesma cabeleira loira, cheirando a crepúsculo, de sua irmã tão linda.

 

 

Adriana Nunes é formada em jornalismo e literatura e é mãe de Jan, de 12 anos. Ela dedica este texto a todas as mulheres que passaram por essa experiência dolorosa, desejando-lhes que, no íntimo, tenham força e sabedoria suficientes para aceitar o que aconteceu, olhando para o futuro com esperança e alegria.

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