A nova escola e o frio na barriga

A nova escola e o frio na barriga

Hoje, quando fui deixar meu filho na escolinha, senti um aperto no coração. É o último dia dele, e nós gostamos muito de lá. Um lugar pequeno, familiar, onde os pais podem influenciar bastante a maneira como tudo acontece.  Apesar de dar muita pena, ele tem que sair. É bem longe da nossa casa, oferece apenas meio-período e mantê-lo lá seria perder a vaga para a nova escola, a mesma que a irmã freqüenta e que ele começa amanhã. A Alemanha, onde eu moro - tão eficiente em tantas coisas -, não consegue oferecer escolas públicas para todas as crianças com menos de três anos. Em muitas cidades, como aqui em Colônia, virou um salve-se quem puder. Se você tem um filho abaixo de três anos e uma vaga na rede pública - e praticamente todo mundo, do padeiro ao executivo, utiliza a rede pública -, levante a mão para o céu. E é isso que eu deveria estar fazendo agora e meio que até estou, apesar de não conseguir de deixar de sentir uma certa aflição com essa mudança.

Meu problema é que, apesar da minha filha ser muito feliz nessa escola, tenho minhas ressalvas em relação ao meu filho, por achar que ele ainda é muito pequeno para o esquema deles.

A Maria começou a frequentar essa escola com três anos e meio. Ela falava fluentemente alemão e português, era uma criança extrovertida, segura de si e gostava de estar com outras crianças. Tinha um pouco de problema para se defender, mas confrontada com um grupo grande, aprendeu rapidinho a utilizar suas armas e hoje é a grande negociadora do grupo. Consegue tudo o que quer sem violência, sem choro, sem drama: só no papo.

Já o meu filho está entrando nessa escola um ano menor, é grudado em mim, ainda está aprendendo a falar e no momento sua maior técnica de negociação é se jogar no chão e espernear. Não acredito que essa abordagem irá surtir efeitos com as professoras da nova escola. E agora me invade a inquietação: como será a adaptação para o Gael? 

Me lembro de um menino de três anos que entrou junto com a Maria no ano passado. Não falava quase nada, era franzino, se escondia de vergonha atrás das pernas da mãe. Chorava um choro ferido só de se aproximar da escola.  Durante semanas, tive pena dele e da mãe, pensei que o menino ia desaparecer no meio das outras crianças. Mas me surpreendi quando um dia o vi correndo em minha direção, sem vergonha nenhuma, falando como uma matraca para contar que a Maria estava no banheiro, porque tinha se sujado com tinta. Foi assim também com o filho de uma conhecida. Eles tinham mudado de bairro, e o menino começou a freqüentar a nova escola, mais perto de casa. A mãe não perdia uma oportunidade de mostrar seu desagrado: o lugar era grande demais, as crianças falavam alto, as professoras pareciam ter sido treinadas diretamente no exército. Seis meses depois, estava todo mundo feliz. O menino visivelmente mais sociável e fortalecido, e a mãe, aliviada, tinha voltado a trabalhar e comemorava os progressos do filho. "Ele se desenvolveu demais depois que entrou aqui, foi bom para ele ter contato com crianças mais velhas", comentou comigo sem demonstrar nenhum constrangimento por conta do erro inicial de julgamento.

Recentemente fui puxar papo com uma outra mãe, cuja filha tinha começado lá na mesma idade do Gael. A mãe da menina tentava me tranqüilizar:  "A adaptação foi tranqüila, ela se sente super bem aqui". Eu conheço a menina, porque estive visitando a turma dela com o Gael algumas vezes. Não sei se posso confirmar totalmente a opinião da mãe. A menininha - uma loirinha linda, de cabelos cacheados batendo nos ombros, e umas bochechas que parecem de boneca - é arteira para caramba. Enquanto eu estive lá, a danadinha não perdeu uma oportunidade de fugir das regras do grupo. Em resposta, as professoras foram firmes e duras com ela. Concordo que é necessário, se alguém ali resolve se rebelar, se rebelam todos. Por outro lado, penso que talvez ela fosse mais feliz numa escola onde houvesse mais espaço para sua incutidas. O mais provável é que a mãe até saiba disso, mas assim como eu e praticamente o país inteiro, é refém de um sistema público, que no momento opera muito aquém da demanda, e limita bastante a liberdade de escolha dos pais.

Fato é que amanhã o Gael está lá e sinto um frio na barriga. Se estivesse de TPM acho que poderia até chorar. Acredito, contudo, que muito além das razões "racionais" que enumerei aqui, o que me aflige de verdade é que esse é um negócio pelo qual meu filho terá que passar praticamente sozinho. Se integrar com os novos amigos, desenvolver suas defesas, se acostumar com as novas professoras e aprender o certo e errado da cartilha delas, enfim, criar a casquinha necessária para crescer, tudo isso é tarefa dessa pessoinha de dois anos e meio. E eu me encontro em mais um daqueles momentos no qual você se dá conta de que a sua onipresença e poderes de mãe protetora dos filhos são limitados. E enquanto o Gael terá que aprender as regras do seu novo jogo sozinho, eu, do meu lado, tenho que aceitar que muitas vezes daqui para frente não vou mais poder jogar. Terei que sentar no banco e ficar na torcida.

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Camila Furtado é mãe de Maria, de 4 anos e de Gael de 2 anos. As crianças freqüentam o jardim de infância desde que completaram um ano. Hoje, prestes a iniciar a quinta fase de adaptação no seu currículo materno, ela percebe que evoluiu muito desde da primeira vez que deixou a primogênita no jardim infância. Mas, doer, dói de qualquer jeito. 

 

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