Uma geração babá-dependente

Uma geração babá-dependente

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Cenas ocorridas numa área residencial nobre de Brasília recentemente: 

Durante a manhã de brincadeiras no parquinho, a babá deixa a criança fazer cocô num canto da grama, perto do prédio, para não precisar subir ao apartamento e usar a privada.

Outra: a babá desce com um saco de tangerinas, divide com as amigas e nåo deixa a criança comer, ainda que ela peça.

Mais uma: a babá não desvia o olhar do celular nem um só minuto e descuida da criança pendurada na gangorra. 

Coleciono histórias de babás porque essa relação doméstica, tão usual no Brasil, sempre me intrigou. 

Meus filhos não tiveram babá, daquelas que ficam por conta o tempo todo, mesmo eu trabalhando fora. Me sinto privilegiada porque tenho um marido bem presente como pai e tive um super apoio da minha mãe. Além de uma empregada que também me deu suporte antes do mais velho ir para a escolinha. 

Até os dois anos do Felipe, só eu dava banho nele. Até nos meus plantões de fim de semana, eu usava a hora do almoço para correr em casa.

Não estou me julgando aqui melhor do que ninguém. Não é isso! Esse é o meu jeito superprotetor que não aceita terceirizar a criação dos meus filhos. Além do mais, eu sempre tive um enorme prazer em fazer as coisas por eles e para eles. 

Eu bem que tentei contratar uma babá numa época em que eu estava exausta, ainda no Brasil. Foi um desastre porque eu fazia tudo e ela só ficava olhando. E quando era para sair, me incomodava ter que levá-la junto. Aí ela ficava em casa vendo televisão e eu pagando. Esta história não durou mais do que um mês.

Confesso que dei e continuo dando uma sorte danada, porque a vida me proporcionou tempo para me dedicar aos meus filhos. Sei muito bem que poucas conseguem isso. Ralam o dia todo, não contam com um suporte familiar e tal. A dependência de uma babá, muitas vezes, é a única saída. Mas sejamos bem justas: algumas vezes é um tremendo comodismo incorporado ao jeito brasileiro de se criar filho. 

Ouvindo a conversa de um grupo de babás na minha última visita ao Brasil, elas estavam com pena de uma colega. A moça cuidava de um bebê durante o dia e à noite a patroa pedia pra ela dormir no quarto da criança para dar mamadeira e tudo mais. "Ninguém aguenta trabalhar 24 horas todos os dias por melhor que seja o salário", dizia uma delas.  Pra mim isto é surreal, mas infelizmente até comum. Fico me perguntando em qual horário essa distinta patroa desempenha o papel de mãe. 

Conheço mães que não trabalham, mas ainda assim contam com babás até de fim de semana. E conheço mães tão dependentes dessas cuidadoras que na ausência momentânea delas não sabem nem onde ficam guardadas as fraldas do próprio filho.

Talvez você se encaixe nesse perfil e esteja com muita raiva de mim lendo isso.

Não culpo, nem julgo ninguém. Mas é que eu sinceramente acho que para ser mãe a gente tem que conseguir abrir mão de certas coisas e se dedicar à criação dos filhos. É impossível, sob o meu ponto de vista, levar a mesma vida "livre, leve e solta" que a gente tinha antes de um filho nascer. A questão não é ter uma babá. É ela existir até mesmo naqueles momentos em que você poderia desempenhar seu papel de mãe.

Eu sempre pensei assim e morando fora essa implicância com a dependência por babás aumentou. Não pensem que essa figura não existe nos Estados Unidos. Sim, elas existem, custam caro (pagas por hora) mas não ocupam o lugar daquilo que é obrigação dos pais. As mães que trabalham fora têm alguém para ajudar apenas naquele horário de trabalho e depois, pai e mãe se viram muito bem sozinhos.

Eu sei que é uma questão cultural, mas não entra na minha cabeça ver uma mãe passeando no shopping com a babá, ao lado, empurrando o carrinho do bebê. Me desculpem, mas sempre achei isso um horror.

Queria mesmo ouvir opiniões contrárias.  Entender esse lado dependente que eu não compreendo. Não concordo com pais que deixam o filho com a babá no parquinho em pleno domingo porque ainda estão dormindo. Não consigo aceitar criança trocando as bolas e chamando a babá de mãe e a própria mãe ser apenas um adereço na criação.

A infância voa. A adolescência também. Pra mim, é tão bom desfrutar dos detalhes, das descobertas, das conquistas dos meus filhos. A vida passa tão depressa e parafraseando o que já foi postado por aqui uma vez: hoje tudo que eles querem é o nosso tempo, amanhã eles não terão mais tempo pra nós.

 

Fabiana Santos é jornalista e mora em Washington-DC há 2 anos. É mãe de Felipe, de 8 anos, e de Alice, de 2 anos. Ela sabe que este é um assunto polêmico. E está aberta para trocar idéias!

 

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