Estamos exagerando no zelo e nas atividades educativas dos nossos filhos?

Estamos exagerando no zelo e nas atividades educativas dos nossos filhos?

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Você já teve a sensação de passar o dia inteiro correndo para lá e para cá com seus filhos? Já se agoniou, presa no congestionamento, porque, mal saiu do curso de inglês, tinha que acelerar para chegar a tempo na escola de balé de sua filha? Já ficou em dúvida se matriculava seu pequeno no piano, no karatê e no futebol, tudo ao mesmo tempo? Ficou morrendo de pena, porque ele adoeceu no dia do curso de pintura dadaísta? Tomou como ofensa a recusa dele de te acompanhar à Flauta Mágica para crianças? E quase morreu de remorso, porque teve que viajar a negócios no dia da reunião de pais e mestres?

Se você respondeu afirmativamente a muitas dessas perguntas, pode ser que esteja sofrendo do que os cientistas americanos chamam de “Overparenting”. Você pode estar exagerando nos cuidados e na educação dos seus filhos. Pode ser também que sua ambição, seu excesso de zelo, a vontade de ver seu filho se excedendo em quase todas as áreas da vida – desde idiomas estrangeiros, até esporte e fotografia – estejam sufocando o que ele tem de mais precioso: a sua capacidade instintiva de descobrir os próprios talentos.

Não se angustie. Quase todos os pais e mães contemporâneos, que podem se dar esse luxo, estão passando pela mesma síndrome. No afã de motivar e estimular as habilidades e vocações dos seus rebentos, eles, às vezes, provocam o efeito oposto, criando tédio, estresse ou desinteresse nos meninos.

Para uma criança descobrir o que ela realmente quer, para saber quais são seus verdadeiros dons, ela precisa de calma, tempo e silêncio, coisas muito raras no mundo moderno competitivo. Elas precisam passar pelo menos algumas horas por dia não fazendo nada que lhe seja imposto de fora, num estado quase contemplativo. Lembro-me de um amigo que, durante a infância, costumava passar horas observando aranhas tecendo suas teias. Hoje, ele é um engenheiro mecânico realizado. E nunca vou me esquecer das palavras da mãe de uma amiga minha, Susana, uma designer super original: „Eu deixava Susana sozinha no seu quarto com massa de farinha de trigo e tintas. Eu havia lhe ensinado a confeccionar bichinhos com aquele material super simples. Quando eu ia lá, de vez em quando, espiar, ela já tinha construído um jardim zoológico inteiro!” Crianças precisam de paz e tranquilidade para criar. Pois a imaginação resulta de escutar a voz do coração.

Então, veja se suas boas intenções não estão impedindo seus filhos de escutarem sua intuição, aquela vozinha silenciosa que guia nossas vidas certeiramente, entre as muitas vozes dispersivas e confusas da nossa psique. Veja se não está sinalizando e mapeando demais o caminho, impedindo que seu fiho siga sua própria estrela.

Se for esse o caso, não se desespere. Ainda não está tarde demais para frear o carro. Pare o automóvel em um campo tranquilo, deixe seu filho saltar e caminhar um pouco, a esmo, pela beira da estrada. E se ele se demorar mais do que você desejaria, cutucando uma lesma ou revolvendo a terra com um graveto, deixe que ele desfrute dos seus devaneios. Deixe seu filho sonhar… Mais tarde, decifrando as pistas que a lesma e o graveto desenharam na areia, você certamente se surpreenderá…

 

Adriana Nunes mora na Alemanha com o filho Jan de 12 anos. Houve uma época em que Jan frequentava o futebol, aulas de música, de inglês e português. Hoje, ele se dedica só ao futebol, sua grande paixão, e desde então tem muito mais tempo livre para brincar, só brincar.

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