Quando os seus filhos te ensinam a ser uma pessoa melhor

Quando os seus filhos te ensinam a ser uma pessoa melhor

Finalmente tinha chegado o dia. Depois de semanas com o braço engessado, minha filha poderia, enfim, ir para escola de bicicleta. Maria não aguentava mais ver todo mundo desfilando sobre duas rodas pelo bairro, sem poder participar. A tortura era demais para ela, que no alto dos seus 4 aninhos, estava super orgulhosa de ter sido uma das primeiras da turma a aprender a pilotar a magrela. Tinha esperado tanto pelo verão... E pimba: braço quebrado. 

Eu estava atrasada para levar ela e o irmão para escola, mas quando vi a ideia já tinha saído da minha boca: "Vamos de bicicleta hoje, Maria? Só não sei se o pneu tá cheio..." Não. Eu tinha esquecido da porcaria do pneu, com certeza devia estar vazio depois de semanas sem uso... Descemos para o bicicletário, eu, ela, o irmãozinho menor e a bomba de encher pneu. Ia custar tempo, mas depois de sete anos aqui na Alemanha, estou pró em encher pneu de bicicleta.

Como eu imaginava os pneus estavam murchos. A Maria prontamente assumiu sua personalidade ultra colaborativa, um privilégio dos momentos em que ela está muito feliz ou agradecida.  Enquanto eu bombeava o ar, minha filha segurava o pneu da bicicleta me atualizando sobre o resultado do meu esforço de tempos em tempos: "Vai, mamãe, tá enchendo, tá enchendo, isso, muito bem!"  De fato o pneu enchia, mas toda vez que eu tirava o bico da mangueira para tentar fechar a válvula do pneu, ele esvaziava de novo em questão de segundos. Tentei, sem brincadeira, umas 30 vezes. E eu simplesmente não conseguia entender por que não funcionava.

Dentro de mim crescia um misto de irritação e pena. Por que eu fui inventar de ir de bicicleta? Eu já estava atrasada para caramba. Queria mesmo era largar bicicleta, bomba, pneu e sair correndo para deixá-los na escola. Eu continuava tentando só para a Maria perceber que meus esforços eram em vão, e também porque ainda não tinha me ocorrido uma argumentação que fosse capaz de apaziguar tamanha decepção.  A Maria, contudo, não perdia a esperança. A cada esvaziada de pneu tentava me animar: "Vamos lá, mamãe, a gente vai conseguir"

Uma vez li um negócio muito lindo que dizia que as crianças, até nas situações mais terríveis, não perdem as esperanças e sempre acham que tudo pode melhorar. Sempre me lembro disso quando vejo meus filhos acreditando em coisas que requerem uma boa dose de inocência e pensamento positivo. 

E na situação da bicicleta, eu via com clareza que encher o pneu era uma tarefa naquele momento impossível de ser realizada por mim. Eu precisava acabar com a esperança dela. Precisava dizer com todas as letras que eu tinha tentado, mas que infelizmente aquela manhã não seria a volta triunfal de Maria e sua bicicleta. Eu estava frustrada, mas confesso que dentro de mim o que prevalecia mesmo era um pressa raivosa. 

No momento que eu peguei a tampinha para fechar o bico da válvula do pneu e encerrar de vez a situação, me dei conta do que estava acontecendo.  Na correria, eu tinha tirado não só a tampa da válvula, mas também um palitinho que fica ali e permite a entrada e saída de ar. Pronto, com o palitinho em seu devido lugar, em um minuto o pneu estava cheio. 

A Maria e o irmãozinho (em solidariedade) pularam de alegria. Ela montou na bicicleta feliz e saiu pedalando livre com uma borboletinha.  

Agradeci a todos os meus santos por ter conseguido encher o pneu e fui atrás da minha borboleta, levando o caçula na cadeirinha da minha bicicleta. Meu peito se enchia de alegria ao ver a felicidade da Maria. 

Na escola, na hora de se despedir ela tirou o capacete, me deu um abraço forte e disse: "obrigada mamãe, eu sabia que você não ia desistir." 

Confrontada com a gratidão e a alegria da minha filha, senti vergonha de mim mesma. De não apenas ter desistido, como também de ter me irritado tão rápido e tentado matar a esperança dela. Balbuciei um "Obrigada a você, filha" que ela não entendeu direito mas tampouco pediu explicação.

Era obrigada por ela acreditar em mim, por vencer a minha irritação e por sair voando como uma borboleta e encher minha vida de pureza e mágica. 

São nessas horas, no meio dos percalços do cotidiano, que eu me lembro do óbvio: amor de filho é a coisa mais linda que existe.  E em gratidão a todo esse amor, eu deveria encher centenas de pneus de bicicleta sorrindo.  Mas eu ainda não consigo, sou apenas uma aprendiz em treinamento. E ela, ela é minha líder espiritual.      

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Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe de Maria, de 4 anos e Gael de 2 anos.  A maternidade a leva constantemente a se confrontar com seus limites, e são nesses momentos, quando ela acha que não pode ser mellhor e fazer mais do que já faz, que  a sua alma cresce, e sim, ela consegue ser melhor e fazer mais do que já faz. 

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