Ensinando aos filhos a derrubar os muros do preconceito

Ensinando aos filhos a derrubar os muros do preconceito

Chorei com o relato da Clara, filha da coreógrafa Débora Colker.

Como já foi divulgado, o filho dela tem uma doença de pele rara, não contagiosa. Mas dentro de um avião da Gol, por causa de uma tripulação absolutamente sem preparo e sem qualquer sensibilidade, Theo foi exposto, humilhado, afrontado. Uma criança de três anos!  

Não adiantou explicação, não adiantou o bom senso, não adiantou nada. A mãe, o pai e a avó de Theo tiveram que engolir uma avalanche de ignorância contra ele. Também já me indignei com outros relatos de mães que passaram por constrangimento ao assistir o próprio filho ser vítima de algum tipo de preconceito.

Uma amiga querida, tem um filho com nanismo. O que você sentiria se passeando com seu filho, alguém apontasse o dedo e dissesse: "Olha lá um anãozinho", rindo na cara dele, como se ele fosse uma atração?

Deve doer na alma da mãe. Eu digo "deve" porque nunca vivi esse tipo de coisa, mas me solidarizo 100% com estas mães.

Só que apesar de perplexa, eu ainda acredito que a gente pode mudar o mundo. Sim , eu sou uma otimista. E o jeito de mudar, está na forma de olhar. E para a gente olhar entendendo que as diferenças existem para serem respeitadas é fundamental ensinarmos isso aos nossos filhos. Parece tão óbvio, mas será que a gente coloca em prática?

Eu acho que nós como pais, precisamos estar atentos. Explicar com todas as letras para as crianças que a gente não pode discriminar ninguém. A gente precisa observar os filhos e daí conversar, exemplificar. E tão importante quanto isso tudo é saber dar exemplo. Não adianta falar para o filho respeitar o colega que é gordo, se pela rua você usa palavras pejorativas para se referir a alguém diferente de você.

As crianças desde cedo precisam aprender que as pessoas são diferentes. Mas a diferença não pode ser motivo de intolerância.

Eu acho que investigar um pouco o comportamento do próprio filho pode ajudar a quebrar barreiras. Por que será que seu filho implica com determinado coleguinha? Será que não tem alguma coisa aí que pode ser uma sementinha de preconceito? 

Procuro mostrar casos reais de discriminação para o meu filho de 8 anos e fico repetindo o quanto isso é ruim. Tento sempre fazer um exercício com ele dizendo: "Se coloque no lugar dessa criança. Imagine se fosse com você". Outro dia ele soltou uma frase do tipo: "Não aguento quem fala espanhol". E eu imediatamente retruquei: "Você não pode pensar dessa forma, meu filho. Você não gostar de alguém por causa do idioma dele não é legal. Você pode não ser fã de espanhol, mas daí não gostar da pessoa? Já pensou se alguém diz a mesma coisa em relação a quem fala português? Você ficaria triste".  Pode parecer pouco, mas é uma das minhas várias tentativas de fazer do meu filho um adulto consciente, sensível e tolerante. Tudo o que os funcionários da Gol deixaram de ser dentro daquele avião com o filho da Clara. Tudo o que as pessoas que cochicham e apontam o dedo na frente de uma criança com nanismo não conseguem ser. Eu penso assim: o mundo está cheio de intolerantes, mas eu vou tentar criar neste mundo dois filhos que respeitem o outro, seja ele do jeito que for. É a minha contribuição.

Outra querida amiga tem uma filha com Down. Lorena tem oito anos de muitas conquistas e uma família que a cerca de muito amor e estímulos.

Resolvi fazer umas perguntinhas pra Gislene, mãe da Lorena, e olha o que ela me diz aqui:

Esta princesa é a Lorena

Esta princesa é a Lorena

Como você vê aquelas pessoas que olham desconfiadas para a Lorena ?

"A reação imediata é instintiva: fêmea com cria ameaçada. Mas em poucos minutos acolho o olhar que diferencia a minha filha das demais crianças. Compreendo que historicamente é muito recente o convívio das diferenças e com isso a mudança cultural está em processo, mas não tem como ser rápida. E termino por tentar contribuir com esta aprendizagem social dialogando com quem a estranha e criando mais pontes e menos muros."

Que mundo você quer para a sua filha?

"O mundo que quero pra minha filha é acolhedor, amoroso, solidário, respeitoso. Tentamos construí-lo todos os dias. Enquanto isso, nós é que nos tornamos mais acolhedores, amorosos, solidários e respeitosos. E ela também vai se formando com pertencimento, sem estranhamento das adversidades, buscando ser um ser humano autônomo, capaz de superar desafios vida a fora e ser feliz, mesmo que num mundo torto. O que todos nós sonhamos para nossos filhos".

Simples assim. E eu vou continuar uma otimista. Afinal, existem muito mais pessoas como a mãe da Lorena nesse mundo do que essa parcela de gente incapaz de enxergar o próximo como a si mesmo. 

 

Fabiana Santos é jornalista e mãe de Felipe, de 8 anos, e Alice, de 2 anos. Eles moram em Washington-DC. A cidade onde há 50 anos Martin Luther King discursou contra o racismo num pronunciamento que se tornou célebre ("I have a dream..."): o sonho de que um dia todos seremos iguais.

 

Uma mãe ambiciosa, uma filha abandonada e um golpe do destino

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