Enfrentando feras pelos filhos

Enfrentando feras pelos filhos

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Amar os filhos ativa na gente uma coragem que nem imaginávamos possuir. De repente, nós, que éramos bem normais, até covardes e hesitantes em algumas ocasiões, nos agigantamos para proteger aquele serzinho dependente e indefeso. Descobrimos uma força descomunal que nos faz varar noites, amamentando, ou levantar da cama, mesmo doentes, porque uma criança faminta não pode esperar. Chegamos mesmo a vencer nossas piores assombrações e, às vezes,  viramos animais para defender nossa prole. 

Desde a infância, sofro de uma fobia de cachorros incurável. Tenho tanto medo que sou capaz de me atirar num rio ou na frente de um trem, se, durante uma caminhada, me deparar com um pit bull ou um pastor alemão. Já cheguei a subir em mesas em casas de amigos e a me refugiar em braços de homens quase desconhecidos, no afã de me livrar de um simples poodle. Diante de tanto desespero, um amigo meu aventou a hipótese de eu ter morrido estraçalhada por cães ou lobos na minha última encarnação. 

Pois bem. Eu passara minha vida me desviando, como podia, desses “monstros” até o dia em que meu filho recém-nascido me obrigou a enfrentar esse pavor. Eu estava no salão de beleza, à espera de ser atendida. Tinha estacionado o carrinho de bebê a uns poucos passos da minha cadeira e estava entretida numa conversa com Wolfgang, meu cabelereiro, sobre os novos tons do verão, quando, de repente, entrou mais uma cliente no salão, com um dobermann solto. Ao farejar a criança dormindo, o bicho partiu diretamente em sua direção, metendo o focinho dentro do carrinho. Mais do que depressa, saltei de onde estava e, interrompendo a conversa, me joguei entre o cão e meu filho, gritando, histérica, para a mulher: “Tire essa fera daqui!” Wolfgang, que até então só conhecera meu lado brasileiro gentil e brincalhão, estremeceu. A dona do cão, uma alemã poderosa como seu animal de estimação, tratou de chamá-lo às pressas e prendê-lo à coleira, como se tivesse acabado de receber ordens de um general. E lá se foi ela embora com o bicho. 

Passado o susto, até me envergonhei por ter expulsado a outra cliente do salão, mas na hora do sufoco a adrenalina lançara uma única mensagem ao meu cérebro: “Seu filhote está em perigo e é seu dever salvá-lo.” A necessidade de proteger meu filho foi mais forte do que minha boa educação. 

Claro que essa súbita coragem nem de longe é comparável ao heroísmo de milhares de pais e mães em situações extremas: pessoas que cuidam de filhos gravemente doentes ou com fortes deficiências; que retiram crianças de um prédio em chamas; ou que se atiram num mar tempestuoso para salvar sua cria do naufrágio. Diante delas, minha “proeza” parece mais uma piada. Mas, em vista do meu medo irracional e quase infantil, a luta contra aquele cão foi como a batalha travada entre o semi-deus grego, Héracles, e a Hidra de Lerna, a venenosa e imortal serpente de Nove Cabeças. E foi por saber muito bem o que essa fobia significa para mim que Wolfgang se despediu, naquele dia, com um misto de horror, espanto e admiração: “Agora eu sei o que é uma uma mãe leoa!”

 

Adriana Nunes mora na Alemanha e é formada em jornalismo e literatura. Desde que seu filho nasceu, há 12 anos, descobriu que pode fazer muitas coisas coisas que achava que não podia ou não sabia. Cozinhar não está entre elas.

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