Me conta uma história? Não.

Me conta uma história? Não.

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Quase todos os dias eu conto uma história para a minha filha antes de dormir. Adoro ver a carinha de interesse dela. As preferidas são sobre a minha infância. Ontem, por exemplo, eu contei para ela uma história clássica da minha família. O dia em que eu e a minha irmã mostramos uma cenoura para o nosso irmão mais novo, dizendo que tínhamos cortado o dito cujo dele. Ele tinha uns 3 anos e não teve a brilhante idéia de conferir se estava tudo ali, dentro da calça. Maria ama essa história.

Quando estou cansada, contudo, eu fico mais nos contos de fadas, porque não é necessário muita imaginação. É só atentar aos detalhes, seguir o script e quando você viu a vovózinha ja está saindo da barriga do lobo.

Hoje eu estava exausta e não queria contar história de jeito nenhum. "Vou ficar aqui do seu lado, te faço carinho, mas hoje não dá, Maria. Mamãe quer ficar quietinha." Minha filha até tentou argumentar mas eu fui tão resoluta, falei com tanta certeza de que nenhuma história ia sair da minha boca, que acho que ela sentiu que não ia rolar mesmo e se conformou rápido.

Tive um dia ruim, nada demais, mas estava cansada até o último fio de cabelo. Senti alívio por ela ter aceitado tão rápido. Mas logo o alívio foi saindo de cena e abrindo espaço para o remorso. Olhei minha filha indo dormir sem história. Pegou o travesseiro, se aconchegou na cama calada. Estava conformada, mas tinha um ar triste, a decepção era clara. Meu Deus do Céu!  Eu nao posso me perdoar por um dia nao querer contar história?

"Sim", penso comigo mesma, "você pode se perdoar". Mas em vez de deixar o assunto para lá e me acertar com a minha decisão, entro numa complexa discussão interna sobre o fato de eu não ter lido para a minha filha. Fico matutando se é justo eu cortar a história dela. Se é certo viver assim, de um jeito em que tantas vezes minha exaustão é maior do que minha capacidade de estar presente de corpo e alma. Fico me perguntando se existem mães - maravilhosas, claro - que querem de verdade contar histórias todos os dias. E me questiono sobre o tipo de vida delas. Penso no medo de me arrepender no futuro. Reflito até se é o caso mesmo de eu ficar pensando nisso tudo. E olha que eu não sou uma pessoa indecisa, mas ser mãe me desafia o tempo todo. Quando eu acho que sei o que estou fazendo acontece qualquer coisa e pronto: já não sei mais.

Pois então, para você eu vou contar uma história. Era uma vez uma menina chamada Camila. Ela queria muito ser mãe. Ela tinha certeza de que ia ser uma boa mãe. Afinal, quase tudo que ela tinha desejado fazer na vida tinha dado certo. Mas aí ela virou mãe, e se deu conta de que nada do que ela tinha feito antes era tão difícil como isso. Existiam milhões de caminhos possíveis, e nenhum mapa. E diferente do que tinha acontecido no passado, agora Camila não queria mais se jogar e ver no que dava. Ela queria acertar. Ela sabia que aqueles caminhos iam definir ela, eles e a vida deles. É por isso que todos os dias tentava fazer o melhor, até quando o melhor era "desculpe, mas hoje eu não vou ler para você"

Ainda nao sei o fim da história. Mas posso continuar amanhã. E te garanto que estou fazendo tudo para o final ser feliz.

 

 Camila Furtado é formada em publicidade e adora contar histórias, não só para os filhos, mas para todo mundo. Com a maternidade começou a viver e escutar tantas histórias inspiradoras que precisou criar um blog para poder contar todas elas. Suas histórias preferidas são as bem sinceras, aquelas nas quais é possível enxergar as nuances na alma e na vida das pessoas. 

 

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