Uma mãe ambiciosa, uma filha abandonada e um golpe do destino

Uma mãe ambiciosa, uma filha abandonada e um golpe do destino

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Toda vez que eu chegava do trabalho, encontrava Eva, uma linda ruivinha, de cabelos compridos, brincando no meio da rua com as amigas. Na época, meu filho era pequeno demais para se juntar à turma. Ficava da janela observando os jogos, com olho comprido.

Regina, a mãe de Eva, tinha acabado de sair de um divórcio traumático. Com um empreguinho mixuruca, de meio expediente, fazia das tripas coração, para criar a menina.

Quem cai na armadilha do meio expediente, aqui na Alemanha, dificilmente sai. Fica ali naquele batente mal pago, até se aposentar. Desnecessário dizer que nunca vai parar de trabalhar, pois a renda na velhice será minguada.

Regina poderia ter se conformado com seu destino, mas, ambiciosa como era, sonhou alto. Disciplinada, se enfiava em casa, na frente do computador, em infinitas horas extras, enquanto Eva brincava pelo bairro.

Quando a garota entrou no ginásio, deixei de vê-la na rua. “Os deveres de casa devem ter redobrado”, imaginei.

Às vezes, eu olhava para sua janela, na esperança de ver Eva, mas o apartamento estava sempre escuro e a televisão, desligada. Regina passara a chegar tarde da noite. Fiquei intrigada: “Por onde anda a menina?”

Certo domingo, o telefone tocou. Era Regina: „Você não vai acreditar! Fui promovida para a filial de Berlim. Uma proposta irrecusável”.

“Que bom, Regina!”, retruquei. “Mas uma pena para nós. Vamos sentir falta de Eva”.

“Você não está entendendo, querida.”, respondeu, com uma voz metálica. “Ela não vai comigo. Dediquei dez anos da minha vida a essa menina. Agora chega. Mandei Eva pra casa do pai.“

Resmunguei qualquer coisa tipo “Boa sorte” e abortei a conversa. Eu estava chocada demais.

Fui para a cama com um carrossel de emoções: tremenda raiva da mãe. Pena da menina. Saudade. E, sobretudo, angústia. E se algum dia eu precisasse fazer o mesmo? Será que eu teria coragem?

E você, querida leitora? Trocaria seu filho pela carreira?

Compreendo as migrantes, que deixam as crianças com a família e partem para outro país, fugindo da fome. Mas trocar um filho por um cargo mais elevado? Acho que jamais poderia.

Passado o primeiro susto, tentei colocar-me na pele de Regina e entender, pelo menos um pouco, sua decisão. Teria sido quase impossível levar a menina consigo para uma cidade distante, grande e desconhecida, num lugar como a Alemanha, onde não se costuma ter babá. E, se ela não tivesse aceito a oferta, seria, depois, mais uma velhinha pobre neste país. Provavelmente cairia nas costas da filha. Devo admitir, porém, que mesmo me esforçando, eu não conseguia aceitar aquele abandono tão brusco.

Os anos se passaram. Certa manhã, ao sair de casa, quase caí para trás, quando vi um caminhão de mudança parado na frente do prédio onde as duas tinham vivido. Para minha surpresa, Regina estava ao lado das caixas que estavam sendo descarregadas. Que diabo ela estava fazendo ali? Seria uma alucinação?

“Voltei para Colônia.”, anunciou ela, toda feliz. “Tive a maior sorte de conseguir alugar de novo meu antigo apartamento, que eu adorava!!!

Ela estava resplandecente, com sua camiseta verde neon e seus cabelos cor de fogo. Parecia ter remoçado vinte anos, e sua pele estava alva e translúcida como a de uma adolescente. Por um momento, pensei estar vendo Eva na minha frente. “Nunca te vi tão jovem!”, exclamei. “O que aconteceu? Se apaixonou?” Ela baixou os olhos com um sorriso modesto: “Foi o amor universal.” “ O amor o quê?”, perguntei, ainda atarantada com aquela situação surreal. Então Regina me explicou como fora demitida da empresa, por incompatibilidade com a equipe de Berlim. E como, de repente, entrou numa crise profunda, que despertou nela uma forte espiritualidade. Tornou-se adepta do Budismo, mandou a ideia de carreira às favas, desapegou-se de outras tantas ilusões, reaproximou-se de Eva e agora busca um emprego que seja compatível com a criação da filha. Solucionadas as divergências, a menina lhe pediu que voltasse para Colônia. Regina nem pestanejou: “Agora, me dedicarei à Eva pelo tempo que for necessário.”

E aqui estão as duas, minhas novas antigas vizinhas. Eva está quase do tamanho da mãe e tão bonita quanto ela. Quando de vez em quando as observo pela janela, parece que estou vendo duas irmãs, tamanha sua sintonia. E me pergunto se, quando elas olham para cá, percebem também entre mim e meu filho essa mesma harmonia… Será?

 

Adriana Nunes é formada em jornalismo, literatura e kundalini yoga. Sua prática diária de yoga é fundamentada na busca do equilíbro, paz interior e desapego - princípios e objetivos que ela tem em comum com sua vizinha Regina. 

 

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