Meus filhos odeiam meu celular

Meus filhos odeiam meu celular

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"Guarda no bolso, guarda, mamãe", é o que a Alice, de 2 anos, sempre fala, quando estou com o meu celular na mão, ao chegarmos no parquinho perto de casa.

Acontece que, infelizmente, me tornei uma celular dependente desde que aderi às mensagens de texto, às redes sociais, aos Skypes, Vibers, Whatsapps e à vida de blogueira. Não estou reclamando disso. Mas meus filhos estão.

Felipe, de 8 anos, adora me tomar o celular nos momentos em que eu mais acho que preciso dele.

Ao me dar conta da minha dependência, eu fico me perguntando: que mundo é esse em que a gente não espera mais nem cinco minutos pra nada?

Porque hoje você manda mensagem pelo celular de várias maneiras e a  resposta pode chegar antes mesmo de você concluir a pergunta.

Aquele momento especial de uma foto ficou sem graça:  você tira a toda hora e manda ao mesmo tempo.

Outro dia estava vendo um show pela televisão, mas a platéia (pelo menos nas primeiras filas) não estava vendo show nenhum porque gravava  ou tirava fotos pelo celular. Se isso acontecesse só num show...

Esse imediatismo me assusta um pouco. Mas ao mesmo tempo, eu faço parte desse mundo urgente e que processa a comunicação muitas vezes através de um celular.

Meu marido não se cansa de contar a história de que só descobriu que a Alice tinha parado de mamar no peito porque eu enviei um email coletivo para amigos e família, contando as novidades da caçula. E ele leu o email ao meu lado na cama!

As inúmeras vezes em que eu acho que perdi o celular viraram motivo de piada aqui em casa. Fico louca procurando (e deixo marido e filhos atônitos à procura). Mas a gente sempre descobre que ele está  nos lugares mais óbvios. É verdade  que uma vez o aparelho realmente desapareceu e voltei às pressas para o shopping onde eu estava. Dirigi até lá com raiva de mim mesma por dar tanta importância a este objeto e ao mesmo tempo desesperada para encontrá-lo. Mas já pensando na opção de comprar outro no mesmo dia. Enfim, o celular foi achado e eu consegui me acalmar.

Mas nem tudo está perdido (com o perdão do trocadilho). Desde que me toquei dessa minha compulsão, tenho tentado esquecer meu celular de propósito em algum canto para curtir a brincadeira com as crianças, ouvir e falar "ao vivo"  com meu marido, fazer contato fora do circuito Skype/Facebook/Whatsapp. Para uma dependente como eu, foi preciso uma decisão radical na hora que estou dirigindo: deixo a bolsa (com o celular dentro) no banco de trás, bem longe de mim!

A última vez em que eu tive a infeliz idéia de ficar mexendo no celular, o sinal abriu: levei uma buzinada horrorosa e um puxão de orelha do meu filho, no banco de trás: "Eu não acredito que você estava mexendo no celular, mamãe!" Senti vergonha de mim e me dei conta do absurdo de colocar a minha vida e a dos meus filhos em risco.

O Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos estima que, por ano, pelo menos 23% de todos os acidentes de trânsito no país (ou seja 1,3 milhão de acidentes)  envolvem o uso de celulares.

O mesmo Conselho indica também que falando do celular enquanto dirige, o motorista aumenta quatro vezes a probabilidade de falhar. E mandando mensagens de texto, as chances de um acidente aumentam de  8 a 23 vezes.

Hoje são os meus filhos, por causa da idade deles, que querem distância de me ver plugada no celular.  Daqui a pouco a história vai se inverter, né? Eles é que vão estar plugadinhos no mundo virtual e eu querendo mais atenção.  Por enquanto eles curtem joguinhos, mas com moderação. Felipe, de 8 anos, até já sondou quando vai ganhar o próprio aparelho. Mas isso não está cogitado ainda aqui em casa. Aliás, me deixou chocada um dado que li outro dia de que 1 em cada 10 crianças americanas (de 5 anos de idade!) tem um celular.

Me pergunto como a gente conseguia viver (tão bem) antes desse retângulo móvel tomar conta do planeta. A vida ficou mais prática, sim. Mas apesar da sensação de termos absolutamente tudo ao alcance da mão, nunca estivemos tão distantes um do outro.

 

Fabiana Santos é jornalista e mora em Washington-DC. Ela dedica esse texto a Camila Furtado, mentora deste nosso blog. A última vez que as duas estavam trocando mensagens frenéticas pelo Whatsapp, Camila mandou a seguinte mensagem: "Fabi, preciso desligar: meus filhos odeiam meu celular", Fabiana respondeu: "Claro, eles têm prioridade" se dando conta que já sabia o tema do seu próximo post.

 

Se você ainda não viu o vídeo abaixo, dê uma olhada.  Quando nós vimos levamos um susto. Não queremos ser mães zumbis. Queremos estar presentes! 

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