Sobre adaptar-se em terra estrangeira

Sobre adaptar-se em terra estrangeira

Transient

A vontade de experimentar a vida num outro país sempre existiu na minha família. Não pelo fato de querer largar o Brasil pra trás (não aguento quem só tem motivos para criticar o Brasil). Mas por querer realmente expandir nossos horizontes, dar a chance dos nossos filhos aprenderem outra língua, outra cultura. Um dia surgiu uma oportunidade de trabalho bacana na capital americana e resolvemos abraçar a aventura.

Escolhemos morar numa determinada região do estado de Maryland, colado a DC, por causa da escola do meu filho. Porque a primeira coisa que aprendi sobre os Estados Unidos é que há escolas públicas excelentes e outras péssimas. E o melhor a fazer é procurar o ranking anual destas escolas.

Felipe, o meu mais velho, chegou aqui aos 6 anos. E não falava nada de inglês. Ok, ele contava de 1 até 10, sabia o nome de algumas cores e só. Os primeiros dias na escola foram de grande apreensão. E todos por lá me falavam: "Calma, aguarde 6 meses e você vai ver como ele vai estar no inglês".

A primeira professora dele, no First Grade, se chamava Mrs Mary De Andrade. Por causa do marido brasileiro, ela usava o sobrenome dele, incluindo o "De" (risos). Mrs De (como era chamada) não falava nada de português, mas deu uma atenção especial ao brasileirinho da mesma terra natal do marido.

Um colega de classe foi sensacional e até hoje digo para a mãe dele que ele mora no meu coração: Rohan defendia o Felipe naquilo que ele não conseguia dizer, ajudava nas tarefas e era como uma bússola para o meu filho pelos corredores da escola.

Jogar futebol foi o trunfo para o Felipe ganhar aceitação entre os colegas. O jogo no recreio "salvou" Felipe de ficar sozinho e construiu pontes. Além disso, desde que chegamos aqui, ele joga numa liga de futebol. Estar num time (seja de futebol, basquete, hóquei, beisebol, lacrosse ou futebol americano) é super importante tanto para se ter uma atividade extra quanto para criar mais um círculo de amigos, além da escola.

Mas o inglês fluente é só da porta pra fora. Conforme um combinado feito desde antes da mudança: a regra dentro de casa é falar somente português. Acredito mesmo que a língua portuguesa é a forma de manter o elo com a nossa família no Brasil. Avôs, tios e primos agradecem. Particularmente, não entendo famílias brasileiras que mudam de língua porque mudaram de país. Eu fico repetindo na cabeça do Felipe como um mantra: "Ser bilíngüe é uma vantagem!"

Outra brasilidade que não abri mão foi do Felipe levar uma marmita (às vezes com o bom arroz e feijão) para a escola. Ele até chegou a relutar um pouco e eu abri uma exceção: ele só almoça na escola quando tem pizza no cardápio.

Pão francês e pão de queijo são duas coisas que Felipe gosta muito e arranjei por aqui. Há sempre uma loja by Brazil em algum lugar perto e a marca espanhola Goya, encontrada em todos os supermercados, é um verdadeiro tesouro onde a gente acha de feijão preto a biscoito Maria.

Devagar (bem devagar) as coisas vão se ajustando. Afinal não é o fim do mundo morar longe de quem a gente gosta depois que inventaram Skype (e Viber... e Whatsapp...). Ferramenta usada todos os dias aqui em casa.

Aos poucos a gente vai tirando de letra, por exemplo, que o feriado de Thanksgiving é tão ou mais importante do que o Natal. Que é preciso ficar sempre atento à previsão do tempo (pois a escola pode cancelar o dia de aula). E ainda: que o Valentine's Day, que está se aproximando, não é uma celebração apenas entre namorados e por isso preciso mandar um chocolate ou presentinho para todos os colegas da classe, incluindo a professora (no primeiro ano ninguém me avisou isso!).

Outra coisa fundamental por aqui é planejamento. Tudo é programado a longo prazo: já chegaram, por exemplo, os formulários para a colônia de férias das crianças (que será em julho!). E porque eu procurei em cima da hora (diga-se duas semanas antes) perdi a vaga das crianças para a natação na piscina pública coberta.

Algo que me enlouquecia e já consigo descartar com certa facilidade é a quantidade de papel que se recebe: da escola e por correio. Propaganda, panfletos e cupons de desconto. Sou mestre em perder a validade dos cupons. Quem sabe um dia serei mais organizada nesse sentido.

Agora já sei que aniversário de criança e os famosos play dates (tempo que o coleguinha vem brincar com o seu filho ou ele vai para a casa do amigo) devem durar no máximo duas horas; que quando uma mãe na porta da escola pergunta "How are you?", isto equivale a um "Oi" porque não necessariamente ela quer saber como você está. E que alguns sorrisos se abrem com facilidade se você chamar o funcionário de qualquer lugar pelo nome (escrito no crachá): "Americanos gostam de serem chamados pelo nome", garantiu uma amiga.

Depois de seis meses, apesar da minha descrença, o que me falavam se cumpriu: Felipe já estava descolado e falando inglês melhor do que eu. Crianças são como esponjinhas mesmo.

Na semana passada, quase três anos depois que Felipe entrou na escola pela primeira vez, ele me saiu com essa: "Mamãe, acho que sou bem popular na minha escola". Aí tive que discorrer um pouco sobre essa história de ser popular: que pode até ser uma consequência bacana, mas não pode ser o objetivo de vida dele dentro da escola. Mas confesso que lá no fundinho fiquei orgulhosa dele ter vencido várias etapas e não ser mais um peixe fora d'água.

Fabiana Santos é jornalista. Além de Felipe, de 9 anos, é mãe também de Alice, de 2 anos. Ela ficou animada de contar um pouco sobre a adaptação num outro país, depois que uma querida leitora sugeriu o tema.

Cartas para Maria

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Minha gravidez: super especial para mim, já para os outros...

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