Cartas para Maria

Cartas para Maria

Eu e Maria (com 3 anos) na praia da Barra no RJ, onde passei minha infância.

Eu e Maria (com 3 anos) na praia da Barra no RJ, onde passei minha infância.

Minha filha Maria completa 5 anos hoje. Todos os anos, desde seu primeiro aniversário, escrevo uma carta para ela em 19 de janeiro. Conto um pouco de como foi o ano que passou, de como ela é, das coisas que estão acontecendo na sua vida e na nossa família.

Quero continuar escrevendo até ela ter 18 anos, e em algum momento, quando ela for adulta, dar as cartas impressas de presente. Uma espécie de registro da sua infância e adolescência, escrito pela pessoa que gerou, pariu, e cuidou dela até completar a maioridade.

Não sei direito como foi que eu tive essa idéia. Acho que quando a Maria completou um ano, eu estava tão feliz, tão orgulhosa dela e de mim mesma, que precisava extravasar a emoção. 

Além do mais, eu sinto falta de saber da minha infância. Nossa geração não teve essa coisa de mil fotos digitais que documentam tudo e eu, particularmente, não tenho muitas memórias na cabeça. Meus pais ainda se separaram muito cedo, então não teve aquilo de crescer escutando eles conversarem  sobre mim. E eu sempre fico pensando na minha infância, principalmente agora, que eu vivo a dos meus filhos.

Nunca me preocupei muito em escrever bonito nas cartas. Escrevo o que vem no meu coração naquele momento e o que me lembro do ano que passou. Lógico que é impossível resumir um ano inteiro de um filho numa carta, então coloco o que ainda está fresco na minha cabeça e o que foi de fato muito relevante para aquele período. No ano que o meu caçula nasceu, por exemplo, eu escrevi sobre como a Maria recebeu o irmãozinho, do quanto ela amadureceu rápido e assumiu com maestria seu novo papel na família.

Há cartas em que escolhi contar alguma historinha do cotidiano ou uma gracinha que ela fez ou disse, e que é só uma no meio de mil outras, mas me ajuda a ilustrar a fase.

Na carta de quatro anos tem um trecho em que eu falo da relação de amizade dela com a prima e sobre a imaginação incrível que as crianças têm nessa idade. Contei que uma vez peguei ela e a Nina brincando de Barbie, cada uma com sua boneca, mas sem o "Ken" para desempenhar a figura masculina. Na falta dele, cada uma pegou uma panelinha para fingir de príncipe. Era tãooooo engraçado. Assim, sem problemas, não tem príncipe, mas tem panelinha! "Vem príncipe, vamos dançar" e lá estava a Barbie de cada uma abraçada com uma panelinha. E as duas priminhas juntas na maior viagem fantástica.

Eu acredito que na infância podemos encontrar muito da nossa essência como pessoas. É uma época na qual ainda não agimos tão pressionados pelas expectativas dos outros, e durante um bom tempo, somos o que somos. Espero que através das cartas, a Maria possa, no futuro, revisitar com mais facilidade esse lugar que contém tanta informação importante sobre quem ela é.

Existem tantos momentos na nossa vida adulta em que a gente sai do trilho, e é tão fácil esquecer o que existe mesmo dentro de nós.  Imagina que bacana, em num momento de muita solidão ler alguma coisa do tipo: "você é muito querida na escola" ou numa crise profissional, quando você está prestes a chutar o pau da barraca no escritório, ler que "você sempre se interessou por artes..."

As cartas contém também um pouco dos meus sentimentos de mãe. Não quero ser protagonista das memórias, mas talvez um dia, a Maria tenha seus próprios filhos e queira saber como foi a maternidade para a mãe dela. E não adianta eu contar isso daqui a 30 anos, quando eu virar avó, porque aí já vai ser outra história. Interessante é deixar bem registrado como são as coisas agora.

Na carta que escrevi hoje, falei que tentava passar para ela o melhor que eu podia. Que, por vezes, tentava ensinar coisas que eu nem tinha dentro de mim. Porque é assim que a gente ama um filho, né? Pelo menos é assim que eu amo os meus, tantas vezes me vejo tentando crescer internamente para poder dar e ensinar mais do que as minhas ferramentas atuais me permitem. Imagina, um dia a Maria com seu primeiro bebê no colo, lutando consigo mesma para virar uma boa mãe, e então ela lê que a mãe dela também teve que lutar, rever conceitos, se superar. Não será relevador saber que eu também não vim pronta?

Enfim,  as cartas são mais ou menos assim. Pensei até em publicar uma delas aqui mas desisti porque acho que ia ser meio chato para vocês. Afinal, quem quer ler uma carta que tem 5 x a palavra linda, 6 x a palavra generosa e mais 4 x inteligente?

Decidi, contudo, dividir essa ideia aqui no blog porque sei que existem muitas leitoras que gostam de escrever, que até têm seus próprios blogs, que nos enviam emails enormes desabafando e também contando alegrias sobre a vida com as crianças. Então porque não escrever sobre isso tudo para os seus próprios filhos, os mais interessados no assunto?

Ninguém aqui está falando de ganhar um prêmio de literatura, mas sim de abrir o coração sobre essa aventura extraordinária, desafiadora e maravilhosa que é criar uma criança.  Eu garanto que, depois de um ano, quando você ler a primeira carta que escrever irá se emocionar.

Hoje quando reli as cartas que já escrevi para a Maria, percebi que tem uma coisa que está óbvia nelas. Minha filha foi sempre e sob todas as circunstâncias, muito amada. Eu e o pai dela estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance para que ela se desenvolva e cresça feliz. Não é tudo na vida, e a grande maioria das batalhas ela terá que vencer sozinha mesmo, mas, convenhamos, é um bom começo, né?


Camila Furtado mora na Alemanha, e além de escrever as "Cartas da Maria", escreve as "Cartas de Gael", nas quais as palavras mais frequentes até agora são: "lindo", "bochechudo", "safado para caramba" e "amor da minha vida".

 

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