Vamos falar sobre comida

Vamos falar sobre comida

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Enquanto a minha filha aqui ao lado desfruta um frozen yogurt natural e kasher no palito, achando que é sorvete, vamos falar sobre comida. Assunto complexo para muitas mães; mas não aqui. Quando minha filha começou a comer, minha pediatra, que como toda boa nova-iorquina, te atende em 15 minutos com simpatia e objetividade, disse: “Give them what you eat” (Dê para o bebê aquilo que você come). Formada também em nutrição, ela não deve ter paciência para aquelas mães que ficam: “mas e o espinafre, introduzo quando? Como preparo a cenoura? E se eu viajar, como fazer? Ela vai sempre responder: “give them what you eat”. Por sinal, a partir dos seis meses ela já falava: “se você tiver comendo algo temperado ou picante, coloque na língua da sua filha para ela começar conhecer os sabores”.

 Soa absurdo? Então pegue uma pediatra que atende aqui no Brooklyn, em um só dia, famílias indianas, norueguesas, espanholas, coreanas, sul-africanas, francesas, brasileiras e até americanas. O que ela vai falar pros indianos? Para comer arroz e feijão todos os dias para ficar forte? Ou preparar um sushizinho com wasabi? Não: ela vai facilitar a vida dos pais e deixar que o alimento faça parte da cultura de cada um, porque ela sabe que quanto mais restrições e invenções, pior. Claro, todos pertencem a uma classe social onde não há obesidade infantil, deixemos isso claro. Em visita ao Brasil, vi na porta da geladeira de uma mãe, um menu feito especialmente para seus filhos por uma nutricionista: item por item de segunda a domingo, seguido a risca pela empregada. Bom, agora vamos à realidade mundial: 99% dos humanos não tem empregada, e quase essa porcentagem mal tem o que comer; então descartemos essa opção.

Tenho sorte por ter uma filha que puxou ao pai – chef de cozinha com apetite à flor da pele (mas quem cozinha pra ela é a mãe!). Os ingredientes aqui são de primeira, nada é enlatado ou embutido. Mas acho que a reação dela perante à comida também é fruto da minha falta de ansiedade: “não quer? Não come.”Desde um ano, ela come sentada no cadeirão, sozinha, de colher. Hoje, aos 3 anos e meio, senta à mesa, obviamente usa garfo e já passa geléia de blueberry no pão de centeio sozinha, com faca infantil. Nunca tive tempo de ficar sentada dando na boca ou encarando ninguém até raspar o prato. Se eu for jantar no restaurante vietnamita, é lá que ela janta. Se eu for no italiano, é pra lá que ela vai. Isso cria a diversidade de paladares, nos libertando dos “menus infantis”, que no Brasil se resumem a filé com fritas, e nos EUA a hambúrguer ou “mac and cheese”.

 Já vi crianças cujos pais ficam tão transtornados com filhos inapetentes, que a criança usa o desespero dos pais como arma: “Ah! Então é assim que eu chamo a atenção da família toda! Eureka! Nunca vou comer! A casa vai parar! Oba!”. Se os pais não se tocam disso, o ciclo nunca se quebra. Se a criança nunca sentiu cinco minutos de fome, como ela vai sentir falta de comida? O pediatra carioca Daniel Becker, gosta de lembrar que hora de comer é hora de comer. Não quer? Tira-se o prato, sem dar opção. Quando a criança sentir fome, ela vai pedir – e comer. Na casa da minha avó, era assim e funcionava. Ela era alemã, sobrevivente de guerra. Ela sabia que em guerra e nas regiões abandonadas do planeta as crianças comem o que tem e quando tem. Ou há alguma escolha? Esta semana, minha amiga Suzana, que mora em São Paulo, revelou sua perplexidade, na mídia social, dizendo que os amigos de seus filhos que vão almoçar na casa dela não gostam de nada. Ela não se conforma.

 Há alguma especulação para a atitude que a Suzana descreveu: além de alguns serem mimados, muitos crescem com babás dia e noite. Babá não é mãe, e pouco se importa com variedades e nutrientes que o rebento vai ingerir. E pior: vão dar “papa de aviãozinho” na boca até os seis anos. Ao mesmo tempo, existem donzelas de 3 anos, como a Maria, que devora sushi, ou a Gabriela, que prefere brócolis a batata-frita, e ainda uma outra que tasca um salmão com cogumelo e aspargos como se não houvesse amanhã (essa última mora aqui e por acaso é minha filha). Elas comem o que a gente come. Claro que existe o dia do “eu não quero”. Mas tudo bem. No meu bairro o índice de mortalidade infantil por subnutrição é zero – e se você tem acesso a internet e chegou até este parágrafo, acredito que no seu bairro também. Dar às crianças o que você come facilita o andamento da casa e faz com que seus filhos sintam-se parte da hora da refeição - e, consequentemente, das suas vidas.

 

Tania Menai é jornalista em Nova York há 18 anos. Ela é mãe da Laila, que adora cream cheese de morango, o menu infantil da rede belga Le Pain Quotidien e o frozen iogurte da marca Yolato. Adora pizza: antigamente retirava as folhas de basílico. Hoje, rouba o basílico da pizza da mãe. 

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