Memórias de um vira-lata chamado Branquinho

Memórias de um vira-lata chamado Branquinho

Minha filha Maria adora escutar histórias da nossa família e eu adoro contar. É uma forma dela conhecer nossa biografia, de ficar sabendo mais sobre os parentes que estão perto do coração, mas longe dos olhos.

Uma das histórias preferidas da Maria é a do Branquinho, o cachorro da minha irmã. 

Há mais ou menos quinze anos, minha irmã Carol, uma amiga e eu alugamos uma casa em Florianópolis para passar as férias de verão. Voltando de uma das primeiras baladas da temporada, sob uma chuva torrencial, encontramos um vira lata no gramado da casa.

Era um cachorro de porte médio, mas muito magrinho. Tinha tanta sarna e estava tão sujo de lama, que quase não dava para saber qual era a cor do seu pelo, mas vimos logo que se tratava de um filhote porque ele tinha os dentes bem branquinhos. 

Muito dócil, ele aparentava fome - de comida e de amor - e naquela noite ganhou uma vasilha com água, os restos do jantar e o direito de entrar na casa para se abrigar da chuva. No dia seguinte também ganhou um banho de mangueira e a medida em que a água ia lavando a lama, vimos que a cor de seu pelo era como a dos dentes - daí o nome, Branquinho.

Acostumado com a liberdade, mas já consciente de que tinha feito amigos, Branquinho dava umas voltas durante o dia, mas sempre voltava para dormir na cama de papelão improvisada em nossa varanda. Antes de terminar a semana já tinha ido ao veterinário, estava sendo medicado e tinha oficialmente se tornado nosso companheiro de férias.

Difícil imaginar que um filhote que tinha nascido e passado uns 6 ou 7 meses na rua pudesse ter boas maneiras, mas Branquinho - com sua pinta de labrador - era um príncipe. Não fazia suas necessidades em lugares inadequados, andava junto e em poucos dias tinha aprendido a sentar e dar a patinha.

Adorava ir para a praia, mas não era daqueles inconvenientes que saiam sujando tudo e pulando em cima das pessoas. Corria para o mar, dava uns pulos na água, mas depois deitava ao nosso lado e ficava admirando o horizonte como se fosse um poeta e não um cachorro. Era impossível não gostar do Branquinho,  mas no caso da minha irmã tinha sido amor à primeira vista.

Mas como todo o sonho de verão tem um fim, as férias foram terminando e a pergunta que não queria calar era quem ficaria o Branquinho quando fossemos embora. Cogitamos levá-lo para São Paulo, tentamos arrumar um esquema com as pousadas do bairro, ligamos para amigos e conhecidos, mas não tivemos sucesso. Ninguém queria ou podia ficar com ele.

Diante do impasse, minha irmã decidiu que não voltaria a São Paulo. Tinha acabado de terminar a faculdade de Artes Plásticas, pretendia ganhar a vida pintando e Florianópolis oferecia, sem dúvida nenhuma, inspiração suficiente. A dificuldade em abandonar o filhote foi o empurrãozinho que faltava para romper com um estilo de vida em São Paulo que nunca lhe agradou.

Juntos, Carol e Branquinho viveram anos muito felizes em Floripa e no Rio de Janeiro para onde se mudaram mais tarde quando precisaram de novos ares. Depois de muita praia e boas histórias para contar, minha irmã precisou de verdade voltar para São Paulo. Ia casar e tinha que acompanhar o futuro marido em sua cidade. Apesar de triste, Carol sabia que um cachorro, com a alma tão livre como a sua, seria infeliz em um apartamento pequeno em São Paulo e decidiu aceitar o convite do meu pai, que acolheu o Branquinho na casa de Campos de Jordão. Lá ele teria muito espaço, seria bem tratado e podia receber as visitar da minha irmã nos fins de semana.

Na casa de Campos, o "príncipe" conquistou não só a caseira, como também meu pai, que concedia regalias nunca antes experimentadas por nenhum cachorro da família. Branquinho encontrou seu lar definitivo na serra.

Mas tem uma coisa que faz a Maria gostar especialmente dessa história. Desde que ela era um bebê, sempre passamos temporadas com meu pai na casa de Campos do Jordão e o Branquinho, com seu jeito manso, foi o primeiro cachorro em que passou a mão, jogou uma bolinha e deu comidinha. O primeiro abraço de cachorro com direito a lambida surpresa na cara foi dele também e assim como na história da minha irmã, Branquinho fez parte dos sonhos de verão da minha filha.

Da última vez que fomos ao Brasil não tivemos tempo de visitar o Branquinho, o que causou na Maria uma tremenda decepção. Meu pai até cogitou levar o cachorro ao encontro da neta, mas desistiu por saber que o cão estava muito velhinho. Maria passou as férias se divertindo, mas reclamando da ausência do cachorro que ela considera tão seu como a própria caseira de Campos do Jordão.

Ontem recebi uma mensagem com a notícia, que depois de três dias internado, o Branquinho morreu. Até na hora de se despedir foi companheiro: poupou minha irmã da decisão de ter que sacrificá-lo.

Não sei ainda como vou contar para a Maria o fim da história do Branquinho. Talvez seja a hora de começar a explicar a ela que nas histórias da vida real, o "felizes para sempre" não existe, mas que existe o presente e é preciso aproveitar as pessoas e os bichinhos antes que eles saiam das nossas vidas.

A ausência não é só triste, já que os importantes seguem vivendo em nós, no jeito que a gente assumiu depois que eles cruzaram nosso caminho. Vivem na coragem de uma menininha que morria de medo de cachorros e que hoje é louca por eles e na certeza de ter feito a escolha certa na hora de remar contra a maré e buscar um rota alternativa, como foi a história do Branquinho com a minha irmã.

Sei que a Maria vai chorar. Talvez até fique brava comigo por eu ter lhe privado da última chance de vê-lo no Brasil. Mas espero que consiga acomodar o Branquinho no seu coração. Talvez um dia, ela realize seu sonho de ter seu próprio cachorro, e se lembre, com carinho, que tudo comecou com um vira-lata especial chamado Branquinho.

 
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Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe de Gael, de 2 anos e Maria, de 4. Ela espera conseguir contar o fim da história sem se comprometer com a futura aquisição de um cachorrinho de consolação para o seu apartamento.

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