A melhor terapia para a fase da birra: a cumplicidade de outras mães

A melhor terapia para a fase da birra: a cumplicidade de outras mães

chilique2fabiana.jpg

Agora minha filha Alice, de dois anos e meio, deu para exigir que qualquer coisa que a gente coloque no prato para ela tem que estar "cheio"... se estiver pela metade ela começa a dar chilique... cheio de arroz, cheio de biscoito, cheio de melancia... e eu ficando de saco cheio! Porque é óbvio que ela não come nem a metade. Mas esta não é a questão principal. O fato é achar um horror me render às vontades de uma menininha de dois anos. Afinal, nessas horas todas aquelas teorias me vêem à mente: a criança não pode ser a dona do mundo, preciso colocar limites, se eu der corda tudo vai piorar... Teses ótimas que na hora "h" são substituídas pela máxima: "faço qualquer coisa pra ela parar de reclamar". Porque é bem fácil falar de teoria quando não se está num restaurante, com visitas em casa ou num jantar daquele casal sem crianças.

Outro chilique homérico da Alice é algo que pra mim é inexplicável: agora ela reclama dos pedacinhos de cebola na comida. Justo eu que sempre tive implicância com pessoas que implicam com cebola! E aqui em casa todo mundo come cebola! Onde ela aprendeu a discriminar a pobre da cebola? Não consigo descobrir.

Tem horas que quem surta sou eu e e tenho de verdade vontade de desaparecer, mas depois passa, me culpo e sigo em frente. Me ajuda lembrar que os chiliques nessa idade da Alice são normais, e tem, como já escrevemos aqui no blog, toda uma explicação científica!

Ontem, a implicância dela foi com o pai. Ela queria dançar com ele na sala. Ele começou a se mexer e ela começou a chorar: "O que foi minha filha?" E ela: "Tá errado. Você tem que dançar aqui!" E ele: "Aqui?". Ela: "Não. Aqui!" . Ele: "E agora? É aqui?". E ela: "Sim. Bem aqui".

Outro dia ela reclamou de algo bobo e começou mais um draminha, com direito a se jogar de bruços no chão e espernear. Fui conversar com ela e perguntei porque ela estava chorando daquele jeito sem motivo e ela, com muita sinceridade, olhou para mim e disse: "Porque a Alice está chata". Ela é meio teatral e por isso faz caras e bocas. No meio do choro é capaz de pedir lenço de papel para enxugar as lágrimas. E a intensidade do choro varia: quanto menor a minha atenção, maior a choradeira. E ao mesmo tempo, ela afasta o cabelo e coloca as mãos no rosto como se estivesse em cena. E realmente está. Numa cena que a primeira vista parece engraçadinha, mas que na maioria das vezes me falta paciência.

O melhor remédio para eu não me sentir uma incompetente como mãe é observar outras crianças com idades próximas a da minha filha. No parquinho, uma menininha encenava uma birra e não queria deixar nenhuma outra criança descer no escorrega que ela decidiu tomar posse. E a pobre mãe bem que tentou com uma boa dose de calma explicar para a filha que o brinquedo era de todos. E para não se estressar, a mãe se desculpou comigo: "Sabe como é, né? Dois anos!". E eu acenei a cabeça com a maior cumplicidade do mundo dizendo: "Sei bem o que é essa fase!". Numa outra cena de cumplicidade, uma amiga pegou carona com a filha no meu carro e eu fui ajudar a instalar o cinto da cadeirinha para a criança. Ela começou um daqueles mini-escândalos e a mãe rapidamente identificou o problema: "Ela quer que eu coloque o cinto nela". E eu: "Claro, imagina, a sua mãe vai colocar!". E a minha amiga disse uma coisa que jamais vou esquecer: "É tão bom quando a gente encontra uma outra mãe que entende o que a gente passa". E é isso mesmo: "Só quem tem filhos entende", como já dissemos aqui no blog.

Os chiliques, as birras, as cenas existem em maior ou menor quantidade na casa de todas nós. E eu nem vou discorrer muito aqui sobre o que é certo ou errado para esta situação melhorar. Eu tenho tentado respirar fundo. Algumas vezes colocar de castigo por 2 minutos para "fazer ela pensar". Em outras situações, dar o braço a torcer e me render pelo cansaço. Mas sempre, pensar que tem alguém, igualzinha a mim, passando por isso tudo: exatamente assim. Resolve? Alivia!

 

Fabiana Santos é jornalista e mora em Washington-DC. Além de mãe de Alice, de 2 anos e 8 meses, é mãe de Felipe, de 9 anos. Apesar da fase chilique, Alice derrete o coração da mãe quando faz uso do seu talento artístico, incorpora seu personagem mais doce e diz olhando nos olhos dela: "I love you so much, mommy!"

Precisando de um pouquinho de coragem?

Precisando de um pouquinho de coragem?

Memórias de um vira-lata chamado Branquinho

Memórias de um vira-lata chamado Branquinho