Uma carta para uma mãe agoniada com a doença do filho

Uma carta para uma mãe agoniada com a doença do filho

Oi, Anna.

Aqui estou eu para tentar te ajudar neste momento delicado de adaptação. Mas antes de mais nada eu preciso te dizer que ser diabético não é o fim do mundo. Eu me considero uma pessoa normal, com as limitaçōes de praxe, mas muito feliz: estudei, formei, casei, trabalho, tive 2 (!!!!!) filhos lindos e continuo pronta pra viver muito mais. Tenho absoluta certeza de que o Rafael vai ser um menino que vai conquistar muita coisa na vida e a diabetes é e vai ser sempre um detalhe. Chato? Claro, muito! Mas absolutamente administrável. 

Sabe o que eu acho? Antes de pensar em qualquer tipo de tratamento ou remédio de última geração para o seu filho, você como mãe precisa tirar esta idéia de “estou em choque” do seu coração. Por favor, não fique com sensação de culpa. É óbvio: a gente quando vira mãe, tem uma certa idéia de termos poderes sobrenaturais para que a vida do nosso filho seja sempre 100%. Mas sinceramente penso que o melhor remédio que você pode dar ao seu filho é encarar a doença (qualquer que seja ela) sem traumas, para evitar traumas para ele. É lidar com tudo tendo muita tranquilidade, firmeza, mas ao mesmo tempo uma certa leveza para as coisas não pesarem.

Eu fiquei diabética aos 12 anos: era desesperada por quindim, brigadeiro, sonho de valsa, doce de leite… Eu já tinha experimentado muita coisa gostosa quando esta história de “não poder mais” apareceu na minha vida. Foi punk. Acho que com o seu filho, que ainda é pequeno, você tem a grande oportunidade de desenvolver nele o paladar para coisas saudáveis como frutas e verduras (e isso por tabela será ótimo para a sua família também).

Aqui em casa não há farra de açúcar. Sobremesa? Só quando tem visita. Meus filhos e meu marido são super tranquilos porque simplesmente não ligam para doces e isso não é nenhuma tragédia pra eles. Conheço famílias que fazem o mesmo por causa de filhos com intolerância ao glúten, no melhor lema: “todos por um”.

O Rafael precisa de um ambiente tranquilo, da certeza de que tudo está bem e o mais importante: ele não precisa da pena de ninguém. Ele não pode ser o  “coitadinho” nesta história. Muito provavelmente ele vai amadurecer mais rápido por causa da doença, vai se tornar um menininho responsável, mas ele precisa levar isso com bom humor.  É fundamental não existir preconceito da parte de ninguém que conviva com ele, para que ele próprio não se boicote, entende?  

Sabe que o meu pai, nos meus 15, 16 anos… levava latinhas de Diet Coke daqui dos Estados Unidos para mim no Brasil, coisa impensável na época. Eu me lembro da gente ter um estoque no sótão lá de casa e eu as tomava com muito cuidado porque eu achava aquilo muito precioso. O meu pai brincava que só eu e o Jô Soares tomávamos Diet Coke no Brasil.

Não sou hipócrita de te dizer que tudo é fácil. Mas o caminho pode ser menos difícil do que você está imaginando. Eu já sofri muito para aceitar a minha própria doença. Meus pais, e não os culpo porque faltou uma orientação, apesar de me amarem demais, não souberam me fazer entender que a diabetes era pra vida toda. Porque eu imagino que era difícil para eles aceitarem também. Aceite o inevitável com serenidade e será mais fácil para o Rafael aceitar também.

Boa sorte.

Fabiana

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