A semana que o papai virou a mamãe

A semana que o papai virou a mamãe

Quem nunca pensou meio de brincadeira em trocar de lugar com o marido? Ah... se ele soubesse como é de verdade com as crianças… Pois eu tive essa oportunidade esta semana.

Meu marido tinha umas férias vencendo, precisava organizar umas coisas em casa e tirou uma semana livre. Para dar uma aliviada na minha vida, já que eu estou (urgh!) nadando em trabalho, ele se prontificou a fazer tudo pelas crianças nesta semana. Serviço completo: levar e buscar no jardim de infância, levar na natação e no futebol, cozinhar, dar banho, colocar para dormir e assumir qualquer outra coisa que viesse no pacote.

A primeira coisa que você vai pensar é que ele é um santo. E é verdade, ele é um santo. (Obrigada Deus!) Só por ele se prontificar a assumir tudo, dá para ver que ele sabe que a rotina com as crianças não é exatamente uma moleza e que faz tudo para ajudar. Mas imagina que interessante você ver alguém fazendo sozinho, tudo o que você geralmente faz? Além de eu ter tido uma semana mais tranquila, já que eu só tinha que trabalhar - e na boa, só trabalhar é muito fácil - fiz algumas observações que queria dividir com vocês.

Ele teve mais paciência do que eu

Mil vezes mais paciência. Claro. Não só porque ele é por natureza uma pessoa mais calma. E sim porque normalmente a gente não perde a paciência descansado. A gente não perde a paciência na primeira vez que o filho diz que não quer tomar banho. A gente perde a paciência depois de um dia daqueles quando o filho se joga no chão, pela centésima vez, porque apesar de ter terra no cabelo dele, ele não quer lavar a cabeça. E perder a paciência é horrível, a gente se sente mal, é triste, não leva a nada. Mas quem nunca?

Ele se divertiu mais

Ontem cheguei em casa 7 da noite pronta para ver o circo pegando fogo. Afinal, 7 da noite é geralmente um horário difícil lá em casa.  Qual foi minha surpresa quando vi meu marido sentando com as crianças no tapete da sala montando quebra-cabeça na santa paz do senhor.  E hoje de manhã? Acordei, entrei na cozinha e ele estava segurando uma criança em cada braço, rindo, porque eles estavam o enchendo de beijos. Nesse momento, eu pensei: "Uau, eu sou realmente o monstro do estresse e tenho bom humor zero". Mas a verdade é que provavelmente eu também estaria de brincadeira, entre uma torrada e outra, se eu nunca pudesse tomar café da manhã com meus filhos. Porque se eu nunca pudesse tomar café da manhã com eles, isso com certeza ia ser mais importante do que qualquer outra coisa que passasse na minha cabeça às 8 da manhã. Mas como eu tomo café da manhã e ao mesmo tempo resolvo e organizo mil coisas para que o dia da nossa família dê certo, às 8 da manhã me encontro geralmente em uma operação logística e não em uma sessão de beijinhos. Infelizmente!

Ele apertou mais o "foda-se!

Esta semana a gente jantou ou nada, ou comida pronta, ou a especialidade do meu marido que ele jura que é super saudável: Bratkartoffeln (uma batata dourada alemã) com ovo mexido e pepino.  As crianças adoram,  pena que não dá para comer isso todos os dias! Nos outros dias, eu tenho que planejar, ir no supermercado, sujar um monte de coisa e cozinhar algo do bem e que faça sucesso com o público infantil. Mas isso a gente pode deixar para os outros dias....

Outra coisa que a gente pode deixar para fazer nesses outros dias é guardar a camiseta de manga comprida, na pilha de manga comprida, e não junto com as calças. E em um outro dia, você também pode pegar aquele moletom limpo jogado no chão, tirar do avesso, dobrar e guardar no armário.  Hoje, é só jogar no cesto de roupa suja mesmo. De alguma forma mágica ao abrir o armário novamente vai estar tudo super organizado. 

Ele não se preocupou tanto

Uma vez por mês as crianças podem levar um brinquedo delas no jardim de infância. Eles amam e esperam ansiosamente pelo "Dia dos Brinquedos". Era hoje, e nós esquecemos.  Ele: volta para casa, pega o jornal e senta para tomar um café. Eu: quero me matar que eu esqueci, saio literalmente correndo para chegar na escola a tempo de dar um brinquedo para cada um. Esbaforida, constato que meu esforço valeu à pena - o Gael está sentando cabisbaixo numa roda com os amigos e era único que não tinha trazido nada. Na volta para casa me culpo porque eu peguei o carro azul, em vez do caminhão de bombeiros, que ele gosta muito mais. Droga!

E a observação final: eu sou uma verdadeira heroína.

Todos os dias eu acordo cedo, preparo o café da manhã, preparo a merendeira, tiro a mesa do café da manhã, me arrumo, arrumo eles e levo no Jardim de Infância. Depois eu vou trabalhar, pego eles, faço o jantar, dou banho, converso, leio história e coloco para dormir. Eles dormem, eu dou um tapa na casa, organizo as coisas para amanhã, vou dormir. 

Tem dias que dá mais certo, tem dias que tudo é tão caótico que eu choro de cansada.  Tem dias que a gente ri na hora do jantar, tem dias que eu perco paciência porque alguém está separando o verde do prato. Tem dias que a gente sai de casa cantando, tem dias que a gente sai de casa brigando.

Mas todos os dias, faça chuva ou faça sol, esteja eu feliz ou triste, bem dormida ou mal dormida, com coisas pendentes na cabeça ou relaxada, com muita paciência ou com um pouco menos, todos os dias eu estou ali. Fazendo com todo o meu amor, todo o santo dia, o melhor que eu posso. Então, só por isso, palmas para mim! 

 

Camila Furtado mora na Alemanha e divide os cuidados das crianças com o marido. Ela tem certeza que se um dia trocasse de lugar com ele e fizesse como ele que passa o dia inteiro numa sala de cirurgia e depois chega em casa e vai diretamente cozinhar Bratkartoffeln, ela também se sentiria uma heroína. E um mundo com dois heróis, funciona muito melhor do que um mundo com um herói só. 

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