Convivendo com um amiguinho sem mãe

Convivendo com um amiguinho sem mãe

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Essa semana fiquei sabendo de uma história super triste. Minha filha Maria frequenta um jardim de infância público para o qual os pais pagam uma contribuição mensal de acordo com os seus salários. Quem ganha mais, paga mais, quem ganha menos, paga menos. E o tratamento e as atividades são os mesmos, para ricos, pobres e aos pertencentes à classe média, a esmagadora maioria aqui na Alemanha.

Estou falando isso porque em uma escola onde o lugar em que você mora ou a conta bancária dos seus pais não são critérios de admissão, é possível encontrar crianças e famílias de todos os tipos.

Eu conheci o Jimmy, um menino da classe da Maria, há dois anos durante o período de adaptação da minha filha na escola. Ele tinha acabado de fazer 4 anos e era de longe o pior comportamento da turma. Me lembro de ter pensado, que se não fosse por ele, tínhamos tido a sorte de ter caído em uma turminha de crianças bem tranquilas. Jimmy vinha sempre com a mãe, uma moça bonita e enfeitada que parecia ser de algum país africano ou arábe. Talvez Marrocos. A beleza interior da jovem mãe era menos aparente já que ela estava sempre com a cara fechada e demonstrava muito pouca paciência com o filho.

Um dia me dei conta de que ela nunca mais aparecia. No entra e sai de pais e mães, o Jimmy estava agora sempre acompanhado por homens diferentes, sempre de táxi. E gente que, assim como a mãe, não demonstrava quase nenhum carinho por ele. Imaginei que por uma incompatibilidade de horários, o leva e traz do Jimmy havia sido delegado para o pai, tios ou amigos da família. E além de todo mundo ser motorista de táxi naquela família, cara fechada também era uma característica do clã.

Mas estava claro que tinha alguma coisa meio estranha ali. A gente percebe quando a criança, independente da classe social, vem de uma família mal estruturada. No caso do Jimmy, os sinais eram a atitude da mãe, o tom de voz por vezes agressivo, por vezes desinteressado que ela usava com o filho, o comportamento sempre desafiador do menino. E por trás de toda aquele inquietude no jeito dele, eu não conseguia enxergar uma criança feliz.

Eu ficava de coração partido. Que tristeza para uma criança ser buscada na escola por um adulto que não se alegra ao revê-la, que não tem o minímo interesse em saber como foi seu dia. Me aliviava, contudo, ver que as professoras o tratavam com muito carinho. Um beijo na hora de ir embora, uma conversinha a mais na hora da entrada... Para um povo que não costuma mostrar sentimentos, o comportamento das professoras alemães me surpreendia. Principalmente porque o Jimmy não é exatamente uma criança que cativa fácil.

Outro dia entrando na escola vi a mãe de um menino aos berros com o Jimmy. Nao peguei a cena inteira, mas pelo que dava para entender, parecia que o Jimmy tinha batido no filho dela, que é bem menor.  A mulher estava fora de si. Está certo que todo mundo tem o impulso de defender os filhos, mas nada justificava aquela mulher de quase dois metros berrando com o menino daquele jeito. Até porque ela não parava: seguia gritando, repetindo tudo que já havia dito e colocando o dedo na cara dele. O Jimmy, claro, comecou a chorar. A professora saiu da sala e veio para o corredor intervir, pediu para a mãe se afastar, e disse que ela mesmo iria conversa com ele. 

Saindo da escola vi através de uma parede de vidro o Jimmy sentado na sala da diretora. A cabeça abaixada, as mãozinhas no rosto, o semblante de uma criança aos soluços. Senti muito por ele, que na minha opinião, devia estar, com sua pouca idade, devolvendo para o mundo o que andava recebendo.

Dias mais tarde comentando a cena toda com uma amiga que também tem o filho nessa escola, fiquei sabendo que faz um ano o Jimmy vive em um abrigo para crianças. As professoras não podem abrir essa informação e minha amiga só sabia disso porque o próprio Jimmy contou para ela numa festa do jardim de infância. Aqueles homens que vejo no horário de entrada e saída da escola, são motoristas de táxi, pagos pelo governo alemão para levar e buscar o menino.  Uma assistente social me explicou que o Estado aqui faz o possível para que as crianças abandonadas pelos pais tenham a vida mais parecida possível com a de um criança que mora com a família.

Alguns podem dizer que já estou há muito tempo fora do Brasil e que essa história toda não é nada comparada com coisas muito piores que ocorrem com crianças no nosso país. Não me esqueci, e sei que é uma sorte o Jimmy viver num lugar onde o governo se responsabiliza por ele.  Mas o que está me deixando especialmente triste na história dele é que todos os dias eu tenho um montão de chances de comparar ele com a minha filha.

Eu dou um beijo de despedida na Maria, digo que vou sentir saudades, que é para ela não esquecer quanta coisa gostosa tem na merendeira, olho para o lado e vejo o Jimmy, quase sempre cabisbaixo, pendurando a mochila sozinho. Na apresentação de teatro, minha filha está lá, orgulhosa, buscando meus olhos, enquanto o Jimmy não tem ninguém que foi lá só para ver ele se exibir. A Maria vêm ao meu encontro com a produção do dia, uma pilha de desenhos e artesanatos: esse fiz especialmente para você, mamãe. E ele? será que ele leva os desenho que faz para alguém ver?  É tudo muito triste, porque no fundo nada diferencia a Maria do Jimmy. Só o fato de que ela nasceu de outra mãe. Uma mãe que provavelmente estava mais preparada psicológicamente para ser mãe. Sim, porque se o problema da mãe do Jimmy fosse financeiro, o Estado alemão também iria intervir e ela poderia viver dignamente recebendo ajuda social. 

Eu estou torcendo muito pelo Jimmy. Espero que ele saiba aproveitar o carinho da professora, que ele consiga perdoar a mãe, que aprenda muito nas escolas que irá frequentar.  Que ele encontre outras pessoas, como eu ou minha amiga, que têm mais interesse em olhar o desenho que ele fez do que gritar com ele. Que ele consiga se desviar dos obstáculos, abraçar as oportunidades, e fazer um bom caminho na vida, apesar do começo tortuoso. E para a Maria, eu desejo que ela aproveite, sem culpa, todos os beijos, carinhos, presentes, e facilidades que a vida lhe garantiu logo de cara. Mas espero que eu consiga ensinar à minha filha o mais cedo possível quanta sorte ela tem. Porque no fundo, se a Maria não entender que ela e o Jimmy não são diferentes, todos os beijos, carinhos, presentes e facilidades não terão valido de nada.

 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe de Maria e Gael.  Assim que descobriu sobre a história do Jimmy, ligou para uma amiga, a assistente social citada acima. Sua amiga explicou que crianças como ele não precisam que ninguém tenha pena deles. Agora se alguém quiser bater um papo ou convidá-los para pegar um cinema, aí sim eles ficam bem felizes.

* Jimmy é um nome fictício.

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