As palavrinhas mágicas

As palavrinhas mágicas

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Desde que meu filho mais velho começou a falar e a entender um pouquinho a respeito do mundo à sua volta que ensinei a ele as palavrinhas mágicas: por favor, com licença, obrigado, de nada e me desculpe. E agora, mesmo morando fora do Brasil, fico insistindo que a gente mudou de endereço mas que a educação não ficou pra trás. 

Com a minha filha mais nova é a mesma coisa: seja qual for o idioma, as palavrinhas não podem ser esquecidas. E do alto de seus quase 3 anos, Alice tem surpreendido muito adulto que não espera que ela agradeça alguma gentileza ou peça licença para pegar algo. E é justamente nesta faixa etária, entre os dois anos e meio e os seis anos de idade, que a pedagogia Montessoriana considera ser ideal para enfatizar o ensino de boas maneiras. 

Nesta fase pré-escolar, as crianças estão mais receptivas para aprender as normas de conduta do que quando ficam mais velhas. E neste aprendizado é muito importante: jamais constranger a criança diante dos outros se ela não fizer o que foi combinado e elogiar se ela conseguir cumprir a missão (de por exemplo, agradecer um presente). 

No livro "Montessori at home or school: how to teach grace and courtesy", da educadora Deb Chitwood, ela diz que provavelmente o jeito mais importante de ensinar boas maneiras é demonstrando a ação desejada para a criança. No fundo, é aquela velha história de dar o exemplo, não? Afinal, se eu não agradeço quando o padeiro me entrega o pão, se eu não peço licença para me darem passagem no elevador, como é que eu vou ter cara de ensinar estas coisas aos meus filhos?

Convivo com crianças já grandinhas que são incapazes de dizer um "obrigado" quando é a minha vez num rodízio de carona que faço com outros pais. Elas batem a porta do carro e pronto. E eu fico lá com cara de tacho, me sentindo mal com o descaso. Minha única ação é falar para o meu filho: "Está vendo o que você não deve fazer? Nunca esqueça de agradecer pela carona".

Ok, alguém vai dizer que desde que mundo é mundo existe gente mal educada. Mas eu estou falando de filhos de gente esclarecida, que se diz preocupada com a água do planeta, que defende os animais em extinção, que faz doação para países como o Haiti. Pais preocupados com o mundo em volta (e que reclamam à beça desse mundo), mas que não se dão conta do valor de uma palavrinha como "obrigado" ou "com licença". Será que é a correria do dia-a-dia que tem feito muita gente se esquecer desses detalhes que para mim são tão fundamentais?

Muitas vezes tudo o que eu venho ensinando, na hora H, não funciona. Lógico que nem sempre meus filhos são os primores em educação, mas eu sigo tentando. Não que eu me ache uma especialista em moral e bom costumes. Mas é que eu tenho certeza de que o uso dessas palavras, muito além das boas maneiras, demostram respeito, humildade, caráter e consideração pelo outro.

Eu acredito que uma criança com estas palavrinhas na ponta da língua pode virar um adulto com mais compaixão. E o que eu tenho visto de criança crescendo arrogante e indiferente com o próximo, me deixa muito assustada. Pra mim ser gentil é o início de tudo, é a primeira boa impressão para o resto deslanchar bem. O mundo anda tão complicado mas eu preciso acreditar que as pessoas ainda podem valorizar estas palavras ao invés de se surpreenderem com elas.

 

Fabiana Santos é jornalista em Washington-DC. e mãe de Felipe, de 9 anos, e Alice, de 2 anos e 10 meses. Alice adora guiar o carrinho de compras para crianças quando vai com a mãe ao mercado. Da última vez, o uso do "Excuse me" e "Thank you"  rendeu elogios da moça do caixa, que lhe ofereceu pirulito pelo bom comportamento.

 

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