Viajar sem as crianças? Nem pensar!

Viajar sem as crianças? Nem pensar!

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Imagina a cena: Natal, meu marido animadíssimo, esperando eu abrir o meu presente. Era um envelope e dentro tinha uma passagem para Washington e New York. Sim, UMA passagem. Para mim sozinha, sem as crianças, sem ele.  Em uma outra vida, isso seria, claro, um super presente. Sempre gostei de viajar sozinha. Naquele momento, contudo, com um sorriso amarelo na cara, eu só pensava como eu ia conseguir cancelar a viagem sem magoá-lo.  Mas certo era que, de jeito nenhum, eu iria para outro continente deixando meus filhos para trás.

O problema não é que não confio no meu marido para cuidar das crianças. Muito pelo contrário, se tem alguém em que posso confiar é ele. Paizão absoluto. E eu já me separei das crianças outras vezes, viagens curtas, aqui pela Europa mesmo. Agora outro continente, por quase uma semana, era um passo maior do que eu achava que podia dar.

A relutância em viajar sem as crianças tem a ver com a maneira como a maternidade aconteceu para mim. Eu virei mãe sem família nenhuma por perto, sem babá, sem empregada. E talvez por nunca ter tido a quem recorrer, não estou acostumada a delegar meus filhos. Sempre sou eu quem está lá para eles. Além disso, tenho que admitir que essa coisa de não querer largar o osso, também tem a ver com minha personalidade. Tenho a maior dificuldade em aceitar ajuda e não sou de pedir arrego. Características que se pontencializaram totalmente - para o bem e para o mal - com a maternidade.

Diante da minha hesitação, meu marido até tentou se organizar no trabalho para que pudéssemos adiar a viagem para alguma coisa do tipo: "o mais tarde que você conseguir". Mas a verdade é que se eu desistisse de viajar naquela semana, provavelmente não iria ter outra chance. Estava tudo bem planejado. Ele ia estar tranquilo no trabalho, podia sair mais tarde e voltar mais cedo para levar as crianças no jardim de infância. E minha sogra, que mora em Berlim, viria passar a semana aqui em Colônia para dar uma força. Era pegar ou largar. E eu peguei.

Peguei porque tinha certeza que as crianças iam ficar bem. E também porque mais do que ninguém eu sabia o quanto ia ser bom para mim ficar um pouco sozinha.

Muito longe de estar super animada, a primeira coisa que senti quando botei o pé na estrada foi medo. É quase engraçado constatar que a maternidade (e talvez a idade) fizeram de mim, a louca das loucas, uma mulher medrosinha. No caminho para o aeroporto fui tentando racionalizar meus pensamentos e me acalmar.

Por que tanto medo? Sozinha, eu já tinha mochilado pelos quatro cantos do mundo e sempre tinha conseguido voltar intacta para casa. Minha sogra é uma avó dedicada, cuidadosa. Meu marido ia estar em casa. Os números da emergência dos hospitais mais próximos estavam colados na geladeira. As professoras do jardim de infância estavam alertas. Até um post-it na bicicleta do Gael para não esquecerem o capacete eu tinha deixado. Mas lembrar de tudo isso não adiantava, meu medo era tão grande que tinha até pensado em deixar uma carta de despedida para as crianças, caso meu avião caísse ou alguma coisa do tipo. Sem exagero, só desisti porque era doido demais.  

Além do lance do medo, eu tinha que aceitar que não estava mais no controle. Tinha que deixar rolar. Talvez meu marido fosse esquecer que quando a temperatura está muito baixa, a Maria vai para escola com a calça azul, que é mais quentinha. E que na merendeira do Gael não adianta colocar banana, que ele não come. Frio, fome, sono, tristeza, nariz entupido - seja lá o que fosse, eu tinha que confiar que as coisas iam se arranjar, e não ia ser do meu jeito.

Não sei direito quando foi que me deu o click para parar de encanar. Talvez tenha sido no momento em que reclinei a poltrona no avião para ler um livro, ou quando eu mandei uma mensagem para minha amiga em NY dizendo que sim, claro que eu topava drinks na terça à noite. Fato é que me dei conta bem rápido que eu estava vivendo momentos raríssimos e tinha que aproveitar. 

Morri de saudades das crianças. No voô de volta meu coração dava pulos de alegria só de pensar que logo ia estar com eles de novo. Mas quando cheguei em casa vi o quanto a separação tinha valido a pena. Não era só o penteado da Maria e a arrumação na geladeira "a la sogrita" que estavam diferentes. Eu também estava diferente. Mais forte, mais conectada comigo mesma, e feliz. Mudar de ares, fez eu olhar para mim e para minha vida com novos olhos. Nada como uma viagem bacana para reciclar os pensamentos. Também me dei conta que muito daquela mulher cosmopolita, que eu achava que não existia mais, ainda vive em mim. E em relação a coisa de deixar as crianças, venci um super medo e amadureci um pouco mais nessa tarefa complexa de ser uma mãe equilibrada.

Mas não estou aqui para contar minhas façanhas. Só queria dizer um negócio muito importante: se você tiver uma oportunidade e alguém de confiança com quem deixar seus filhos para fazer um pausa, vá. Não precisa ser por muito tempo, nem para muito longe e nem precisa ser sozinha se você é do tipo que prefere companhia. Ter a chance de descansar de verdade e deixar para trás o cotidiano, fará você voltar para sua vida com outra pegada. 

Sabe, desde que as crianças nasceram, eles são minha prioridade total. Todos os dias abdico de coisas pequenas e grandes em prol do bem estar deles. Mas sempre quando eu faço alguma coisa bacana por mim, eu percebo que, feliz, é muito mais fácil ser a mãe que eu quero ser. Então, se pensar apenas em você não é motivação suficiente para largar o osso de vez em quando, pense nas crianças. Eles merecem uma mãe feliz.

 

Camila Furtado mora na Alemanha, tem um marido maravilhoso e dois filhos incríveis. Ela sempre soube disso, mas depois de uma semana sem eles, tudo ficou mais claro.

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