Demissão por uma causa justa

Demissão por uma causa justa

"Caros colegas e amigos,

Eu tomei a decisão um tanto quanto difícil de deixar o trabalho (pelo menos por enquanto) para passar mais tempo com meus dois bebês (de 2 anos e meio e 1 ano de idade). Vou ter um ano para pensar sobre o que eu quero fazer com a minha vida profissional no futuro, agora que eu sou uma mãe. Eu não quero mais ficar viajando a trabalho, como eu costumava fazer, e eu sinto que eu tenho que dedicar mais tempo para os meus filhos.

Obrigada a todos vocês por estes 6 anos maravilhosos que passei aqui. Vou sentir falta de tudo isso e eu levo comigo a mais querida das memórias."

O velho dilema bateu na porta de Bárbara, uma colega de trabalho do meu marido. Li este email e meu coração ficou apertado. Abrir mão de um prestigiado cargo, de projetos em andamento, do caminho que foi construído com esforço depois de tanto estudo e especializações? Mas é que "agora que sou uma mãe", como ela mesmo disse: o tempo voa e as crianças estão lá crescendo e ela não está por perto. Não dá para conciliar? No caso dela, não deu. Será que ela vai se arrepender? Só o tempo vai dizer. 

 Acostumada a reuniões, viagens e palestras, agora ela vai ser só mãe. SÓ MÃE? É o que muita gente vai questionar depois de ler este mesmo email que li. "SÓ tomar conta dos filhos, SÓ cuidar dos afazeres domésticos, SÓ ficar em casa..." Sim, porque o mundo gira, mas o preconceito com a mãe que decide deixar de trabalhar fora ainda persiste. É como optar por uma condição menor, uma decisão mais cômoda, uma opção simplória.

No seu último dia no trabalho, os colegas se reuniram para um almoço surpresa num restaurante chinês. Ao abrir um biscoito da sorte, ela leu: "Você não é o tipo de pessoa que desiste", e ela guardou bem aquela mensagem como um lema, se num futuro próximo bater uma certa crise existencial.

Na primeira segunda-feira sem o escritório, ela acordou cansada como de costume (o filho de um ano acordou 5 vezes à noite), tinha a bagunça da casa pra arrumar, mas não havia nenhuma tristeza nem arrependimento do que ficou pra trás.

 Depois que deixou as crianças na escolinha (agora só por quatro horas e não mais por todo o dia), ela começou a fazer as coisas em casa que jamais tinha feito, incluindo colocar a roupa na máquina de lavar. Porque estas funções domésticas sempre estiveram por conta do marido enquanto ela dava conta das crianças quando os dois voltavam do trabalho. E justamente por isso ele ligou preocupado pra saber se ela estava sabendo ligar a máquina de lavar e ela se ofendeu um pouquinho com isso. 

Enquanto desempenhava suas novas atribuições, ela começou a pensar na decisão tomada: não era só o fato de agora estar em casa, mas estar inteira, com bom humor e energia, sem parecer um zumbi, como ela mesmo se descreveu. Era algo para trazer qualidade de vida no seu relacionamento com os filhos e com o marido. É claro que a questão de dinheiro pesou. Afinal, eles precisam das duas rendas para manter a casa. Mas por terem economizado um dinheiro, o que eles têm na poupança vai servir para dois anos. E depois disso, possibilidades de fazer algum tipo de trabalho, como consultorias sem sair de casa, não estão descartadas.

Pensando na nova vida, ela também constatou, ao se lembrar de uma conhecida, que não quer se tornar uma daquelas donas-de-casa ranzinzas, que são capazes de perder tempo mandando um email para pedir de volta o Tupperware emprestado. Ela quer manter sua conexão com o mundo que corre lá fora. Como uma pessoa metódica, já nesse primeiro dia, ela fez uma lista de prioridades domésticas a serem executadas. Uma lista que pela extensão ela mesmo acha que só vai terminar em cinco anos, mas tudo bem.

Ao buscar a mais velha na escola, Bárbara se deparou com uma mãe, que sempre foi pontual, abraçando a filha. E viu de longe a sua própria filha observando esse encontro, com uma cara triste achando que mais uma vez ela iria ser uma das últimas a ir embora. Quando a filha a reconheceu, o rostinho se iluminou porque era a mamãe e ela lá estava mais cedo! Bárbara jurou pra si mesma buscar a filha sempre antes da outra mãe, torcendo para aquela não pensar o mesmo e isso virar uma competição.

À tarde, ela assistiu várias vezes com a filha um trecho do filme "Frozen" (que ela e a filha amaram) em que a personagem Elza canta a música "Let it go" (traduzido para: "Livre estou"): "Sem certo, nem errado. Não há regras pra mim. Estou livre", canta Elza, feliz, determinada e poderosa com seu novo vestido azul. Nem é preciso dizer que Bárbara se sentiu como Elza: uma super-heroína ao calçar um par de tênis pela primeira vez em muito tempo (muito tempo mesmo!) para brincar de pique-pega com as crianças. "Eu sei que deixei uma vida para trás. Mas estou aliviada demais para lamentar", cantarola Bárbara, usando a canção de Elza.


Fabiana Santos é jornalista, mãe de Felipe, de 9 anos, e Alice, de 2 anos. Eles moram em Washington-DC. Bárbara também mora na capital americana e, gentilmente, permitiu que seu email e o seu primeiro dia da sua nova vida se tornassem públicos. E a gente deseja tudo de bom pra ela!

O primeiro beijo

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Sobre o que acontece lá em casa...

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