Mãe perfeita: uma espécie inexistente (ainda bem!)

Mãe perfeita: uma espécie inexistente (ainda bem!)

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Se você está grávida e cheia de sonhos (e talvez mais dúvidas do que sonhos), eu queria dizer que a maternidade não é o conto de fadas que vendem por aí. Por favor, não façam julgamentos antes da explicação: mas o fato de que é maravilhoso ser mãe, não elimina os perrengues que muita gente finge que não acontece.

Ainda com o bebê na barriga a gente começa a ser rodeada por um mundo de livros de auto-ajuda materna, propagandas na TV, discursos nas redes sociais e pitaqueiros de plantão que acham que a perfeição materna existe.

Pôxa... se ela existe está passando longe aqui de casa. Meus dois filhos nasceram de cesária e não poderia ter sido de outro jeito porque as minhas duas gestações foram de alto risco. Sei bem a importância do parto natural, do quanto ele deve ser priorizado e de como, infelizmente, alguns médicos preferem a facilidade do parto agendado. O assunto aqui não é esse. E sim a frustração que invade um monte de mulheres por conta da patrulha do parto normal. Mulheres que se sentem absurdamente fracassadas quando tiveram que optar por uma cesariana. Já começa aí. Todas têm que ter uma leoa dentro de si ou já iniciam mal a maternidade. Para mim o importante é nascer bem! Porque cada caso é um caso.

Eu consegui amamentar meus filhos até os oito meses de cada um deles. Mas foi super desgastante. Eu me empenhei: recusava veementemente o uso da mamadeira, aplicava todas as técnicas para induzir a produção de mais leite, levava a bomba de tirar leite para o trabalho. E sofri de remorso quando tive que dar complemento de leite artificial. Quase enlouqueci meu marido com essa fixação por amamentar porque é lógico que sendo uma pessoa esclarecida, sabia o quanto o leite materno é importante. O discurso de que: "não há mãe sem leite o suficiente para o filho", me perseguiu.

E como não sou a mãe perfeita, outro dia foi a minha vez de dar chilique aqui em casa pois a minha paciência tem o direito de chegar ao limite. Meu mais velho estava incrivelmente desobediente nesse dia e eu falei um monte de bobagens do tipo: "Queria ver se você tivesse uma mãe como daquele seu amigo que a mãe nem cuida direito dele". Horrível isso, né? Mas quem nunca sacou mão de uma argumentação bem pedagogicamente incorreta num momento difícil com os filhos?

Outra coisa que entra na minha conta de imperfeição é não ser uma maravilha na cozinha. E apesar do meu mais velho ter comido papinha caseira no Brasil, eu optei pelo potinho do mercado para a mais nova quando me mudei para os Estados Unidos. Escolhi a praticidade e ouvi muitas críticas. Meus filhos têm uma alimentação balanceada e saudável na medida do possível (sim, eles comem muitas frutas e verduras!). Mas essa explicação não serve. Pra você ser elogiada como mãe hoje em dia tem que ter no minímo declarado guerra contra o glúten. Deixar o filho se deliciar com um chocolate, sem medo de ser feliz? Nem pensar!

Por causa da busca pela perfeição e justamente por jamais alcançá-la, sou corroída pela sensação de culpa. Não é porque eu sou mãe que meus defeitos desapareceram. Já li coisas do tipo: "Como ser uma mãe melhor ainda". Mas espera aí: melhor do que quem? Tem alguém disputando algum troféu?

Sinceramente, já pensou se a mãe perfeita existir? Jamais se cansa por acordar de madrugada, tem mestrado em Nutrição, doutorado em Pedagogia, nunca teve vontade de sair correndo, administra um cardápio impecável, não solta um palavrão na frente das crianças, sabe tudo sobre as últimas novidades do mercado infantil e arranja tempo de sobra pra se cuidar mesmo sem terceirizar os filhos. Como ela consegue? Não consegue porque mãe assim não existe. Se existisse seria uma chata! Afinal de contas, me diz... Você gostaria de ser amiga de uma mulher assim?



Fabiana Santos é jornalista, mora em Washington-DC e é mãe de Felipe, de 9 anos, e Alice, de 2 anos e 11 meses. Este texto foi inspirado no email de uma querida leitora: cansada dessa tal maternidade perfeita e defensora do direito a muitas dúvidas.

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